O casal chatinho

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Há casais que se tratam por “amor”, “bem”, “linda/lindo” ou até buscam ajudinha em outro idioma, como “baby” ou “mon cher/ma cherrie”, mas é sempre algo que tenta descrever o carinho sentido. Outros se chamam por apelidinhos que só eles sabem o motivo. E há o casal chatinho: eles não se tratavam por apelido algum, nem por um termo carinhoso. Aliás, dada a cara que se olhavam, era possível pensar que um havia esquecido o nome do outro.

O casal chatinho foi observado durante uma festa de casamento. Todos estavam alegres, sorridentes, comendo, bebendo, alguns até já fazendo novas amizades, vibrando pelo casal amigo que acabara de selar o amor numa união tão bonita, mas eles não. Eles não tinham cara de muita coisa. Tem gente que passa ser de um jeito ou de outro pela expressão que carrega no rosto. O casal chatinho tinha cara de chatinho. Ela, pessoa nova, vestida finamente, com os cabelos presos por presilhas de strass e encharpe da cor do esmalte, não conseguia esconder a expressão sisuda e retida que tinha por detrás da maquiagem bem feita. Ele, bem… ele é algo que até faltam palavras pra definir, pois ele é bem assim: sem nada. Sem sal, sem graça, sem vontade, sem vida. Eles até trocaram palavras com outras pessoas, mas não juntos: ou ele falava e ela comia ou ela falava e ele ficava parado ao seu lado. Isso! Era isso que o rapaz parecia: uma estátua ambulante, uma estátua que mexia os bracinhos.

Foi-se, então, feita uma aposta secreta pelos (mui!) amigos do casal para ver se, ao tentarem embriagar o casal chatinho, a dupla ficaria menos chata. Descobriram que o rapaz gostava de uísque (hummm, já melhorou em uns 10% a chatice dele) e ela, de caipirinha, mas tinha que ser de saquê (melhor ainda, sobe mais rápido). Deu-se a largada dos amigos em direção ao bar ou em busca dos garçons. Bebidas servidas e o casalzinho inocente beberica seus copos como passarinho toma água . Tic-tac, tic-tac, pedem outras. Tic-tac, tic-tac. Os amigos que, naturalmente, bebem mais rápido, começam a ficar embriagados. Tic-tac, tic-tac. Terceira rodada pros chatinhos e a quinta pros amigos. Inicia-se o movimento geral: uns vão pra pista, outros pro lado de fora fugir do calor do salão (mas com copos na mão) e o casal chatinho começa a interagir um com o outro. De repente, alguém avista o casal sorrir e se acariciar. A penúltima cena vista foi o casal chatinho fumando o mesmo cigarrinho, sentadinho grudadinho, falando ao pé do ouvidinho. Casal que é chato, é chato até na hora de ser grude. Os dois não se separaram mais e não interagiram com mais ninguém, nem mesmo com as bebidas que restavam nos copos.

Os amigos tentaram os encontrar para devolver a encharpe perdida no chão e a gravata dele alguns metros adiante com marcas de batom. Se entreolharam com sobrancelhas arqueadas e sorrisos maliciosos de canto de boca e chegaram à conclusão que a última cena do casal chatinho ninguém viu, pois já não estavam mais na festa.

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3 Comments Add yours

  1. Lidiane says:

    Juuu…

    Adorei descobrir essa sua inclinação à cronica! O finalzinho desta tem um “quezinho”de Nelson Rodrigues que eu me amarrei!

  2. Odair Ribeiro says:

    Atire a primeira pedra aquele que nunca foi um pouco chatinho, um pouco taradinho, um pouco esquisitinho… Como diz a Avril Lavigne, “life’s like this, that’s the way it is” 🙂

  3. Vivian says:

    Adorei, Ju! Como eu te disse… “Go for it”. Dom é um presente de valor inestimável. Todo o resto a gente compra com Mastercard, mas essas suas sacadas não tem preço!!

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