A casa dos espíritos

O Sr. Longdale mal pôde acreditar em seus próprios olhos quando a avistou. Era perfeita. Afastada de tudo e de todos, mas perto o suficiente da natureza para ouvir o riacho que corria ali por detrás dela (ou seria pela lateral?). Tinha aspecto impecável para um homem que adoraria estampar sua própria marca na casa em que seria seu novo lar-doce-lar. Filho de marceneiro, tinha conhecimentos suficientes para deixar o local como novo ou, pelo menos, com toques e requintes típicos de um Longdale! Seria a visão real ou uma brincadeira de mau gosto vinda de seus maiores sonhos ocultos e reprimidos? Não sabia responder, dada a distância em que se encontrava de seu objeto de desejo. Resolveu aproximar-se. Foi dirigindo lentamente, de modo que a casa ia, na mesma velocidade, ficando maior a seus olhos. Com estes bem abertos e hipnotizados, começou a rir sozinho, levando uma mão à boca, pousando a outra sobre o volante e deixando o pé acelerando mecanicamente. Ao estacionar, contemplou-a de dentro do carro por alguns instantes, como se para pegar fôlego suficiente e reunir força para sair. Abriu a porta com determinação, mas sem fazer nenhum ruído. Não queria assustar a casa. Se ela fugisse e ele a perdesse, jamais se perdoaria. Praticamente engatinhando, chegou à soleira. Aí desmoronou e agarrou os degraus com os braços. “É real!! É real!” sussurrou entre gritos abafados. Vai que alguém mais o ouvisse e sorrateiramente surrupiasse a casa?? O pensamento era tão doloroso que o afastou rapidamente. Decidiu levantar-se e sentiu, tinha certeza, a mesmíssima sensação de propriedade e autonomia que Moisés sentira ao ser o portador oficial dos 10 Mandamentos. Deixou escapar um certo palavrão por não ter, ali de imediato, uma daquelas placas de “Vendida” para já fincá-la, demarcando o seu território. Foi quando quase sofreu um ataque cardíaco indesejado ao escutar a porta abrir atrás de si. Recordou-se do tamanho da sua espinha dorsal ao senti-la inteira latejar nas suas costas. Sentiu um vulcão em suas entranhas e virou-se como que em câmera lenta, percebendo uma gota fria de suor escorrer da têmpora esquerda até sua orelha e sentindo um punho fechar-se, caso precisasse deferir o golpe. Foi quando avistou uma senhorinha de cabelos feitos de algodão, bochechas rosadas e profundos olhos acinzentados. Certamente haviam sido bem azuis na juventude, a idade os deixara cinzas, porém ainda muito vivos e alegres. Vestindo um macacão de jardinagem e luvas cheias de terra, a Sra. Memphis lhe sorriu com certa expressão de dúvida que deixou os pequeninos olhos ainda mais cinzentos.

– O senhor está bem, Sr. Longdale?, perguntou com sua voz macia.

A nuvem que ocupara seus pensamentos foi desaparecendo a cada piscada apressada que ele dava e os sons vindos de toda parte rapidamente tomaram conta de seus tímpanos. Sacudiu a cabeça como que para acordar de um pesadelo, limpou o suor e afirmou que sim, que era apenas o calor que o havia deixado zonzo. Ela lhe sorriu e ofereceu um copo de limonada gelada. Ele recusou, ainda com cara de quem está perdido no meio de um labirinto. Ela então perguntou se havia alguma correspondência para ela ou seus inquilinos. Ele babulciou que sim, como se as palavras tropeçassem em sua língua, saindo entrecortadas.

– Me desculpe… esqueci a bolsa com as cartas no carro. Já volto.

O medo o possuíra de tal forma que mal conseguiu chegar no carro. Quem era aquela senhora que o conhecia pelo nome? Como poderia alguém que ele nunca vira antes tratá-lo tão amavelmente? O pavor o fez correr até o carro, dar partida na ignição e deixar os pneus cantarem livremente, celebrando sua saída. Perplexa, a Sra. Memphis observou o carro sumir pela estrada reta, no campo aberto. Ainda não sabia que não receberia as cartas daquele dia e de nenhum outro por vir.

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4 Comments Add yours

  1. Carla says:

    Pls, escreva um livro!! Bjs.

  2. Ana says:

    Escreva um livro mesmo!! Se até a Ana Maria Braga pode, porque você não?! rs

  3. Daniela says:

    Escreva um livro!!! Escreva um livro!!! hahaha

    Vc tá foda… cada dia melhor!

    Parabéns minha querida! Bjão!

  4. Silvinho says:

    Quando li o título desse post,nem quis ler o resto…
    Sou um puta cagão…rsrsrs.As chances de eu ficar com medo do escuro são enormes…tô fora…

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