Adeus ano velho

Era noite de Ano Novo e todos se mexiam rapidamente para lugares animados, restaurantes com vista pro mar, festas caríssimas pagas com 11 meses de antecedência, casa de amigos e até à praia mesmo, propriamente dita, para pisar na areia e pular as famosas 7 ondinhas. Os animados de alma, mas sem muita disposição física, resolveram ficar em casa com seus bichos e vizinhos para trocar os desejos de coisas maravilhosas e os costumeiros abraços gostosos de virada de ano.
Menos eles. Os três se dirigiram de forma quase proibida para o alto de um pedra que, segundo suas crenças, só eles conheciam. Levaram cobertores macios para afofar o duro da pedra nas costas, uma champagne barata só para estourar e se lambusarem de espuma e risadas e outras três garrafas da bebida já de qualidade superior para beberem. Ah, sim, uma garrafa para cada! O ano era quase novo, mas os hábitos antigos são difíceis de serem largados.

O rapaz levou seu cigarrinho da sorte para acender no sétimo minuto do 1º dia do ano. Ele havia pintado um trevo quatro folhas no fininho na altura de onde seria, de acordo com seu cálculo, sua sétima baforada. Para ter mais um “sete”, o rapaz daria 3 abraços em cada amiga e um nele próprio na hora em que os fogos cessassem.

A mais nova dos três levou os óculos que nunca usava (simplesmente por não gostar, apesar de saber que lhe caíam muito bem) para não perder nenhum detalhe dos fogos de artifício. Seria sua primeira vez a vê-los assim, ao ar livre, com o céu como pano de fundo e a altura do penhasco como companheira invisível. Todas as outras vezes havia visto os estouros pela televisão, ao lado da avó. Para ela, mais do que nunca, um ano bem novo estava virando a esquina. Levou também bolachas esmigalhadas dentro de uma caixinha só para soltá-las ao vento quando a gritaria de “feliz ano noooovooooo!” começasse. Eram as favoritas da avó.
A terceira só levou seu sorriso mais acolhedor e honesto que lhe era costumeiro. Isso bastava pros três.
Sentaram-se juntos, finalmente, após argumentarem sobre qual lugar seria o ideal e com a melhor visão pros fogos. Deram-se as mãos, mas cada perna parecia ter sua própria personalidade: duas estavam cruzadas entre si, uma estava esticada pra frente e sua companheira mantinha o joelho dobrado pra cima e as outras duas estavam jogadas em cima do joelho alheio.
Seis olhos fixaram-se no horizonte, ansiosos pelo espetáculo que estava por vir. Para dois destes olhos, o espetáculo era a emoção de novas perspectivas vindas de um simples trocar de minuto. 23:59h: vida velha e chata. 00h: lindas perspectivas.
Para o outro par de olhos: a grandeza da natureza seria logo iluminada por inúmeras luzes artificiais, mas que mais se pareciam com estrelas cadentes, explodindo tão próximo dali. Mesmo de óculos, espremeu os olhos para enxergar mais.
O terceiro parzinho de olhos estava imóvel, sem piscar. Ao contrário do corpo do qual fazia parte: a moça estava irrequieta, mexendo suas pernas, apoiando todo o peso do corpo nos cotovelos enquanto girava o pescoço para cima, como se em busca da posição perfeita. Só parou de se mexer quando observou, sozinha, uma real estrela cadente. Rapidamente fez seu pedido e guardou tal episódio, satisfeita, para si. Acreditou que aquilo era o presente de Natal que não havia ganho e esboçou um sorriso peralta de canto de boca como se em cumplicidade com os céus. “Obrigada”, sussurrou sua alma dentro de si bem na hora que começaram os estouros e os amigos a puxaram pelas mãos para se levantar.
A champagne barata rendeu boas manchas molhadas nas camisas dos três, cabelos com mechas grudadas e franjas levemente grudadas na testa. As outras garrafas garantiram as boas risadas até o caminho de casa, enquanto cantavam em alto e bom tom, repetidamente: “adeeeeus ano velho, feliz aaaaano nooooovo, que tudo se realiiiiiiiiiize no aaaaano que vai nasceeeeeeer… muito dinheiro no bolso, saúde pra DAAAAAR e vendeeeeer!”
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3 Comments Add yours

  1. Odair Ribeiro says:

    Ju, eu estava aqui pensando em escrever um post (que aliás, vou escrever) sobre renovação, pela minha data de aniversário, e você me escreve um sobre ano novo quase no meio do ano.
    Teria sido coincidência??? De onde vc tirou isso???
    Anyway, me ajudou na inspiração e na convicção de que é isso que tenho que fazer. Depois de ler o comment, vai no meu blog que o post estará por lá.
    Beijos e obrigado!!!!!!!!!!!!

  2. Ana says:

    Alguém poderia me ajudar a entender porque as semanas demoram tanto pra passar e os anos passam tão rápido?

  3. Silvinho says:

    Será que a mais nova além dos óculos,levou bolachinhas tipo “lanche” da MIRABEL…rsrsrsrsrs
    Uhuuuuuu…rs

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