Os últimos serão os primeiros

O Cachorro, na verdade, já tinha virado desculpa para ainda estarem juntos. Não queriam que o pequeno fosse “cachorro de dois donos” morando sob o mesmo teto. A dificuldade de tomarem tal decisão era, praticamente, a mesma que casais que se separam com filhos: eles viram desculpa, remorso, apego, lembranças de algo que era pra ser “pra sempre” e agora… havia acabado. Aí voltaram para a infância, na fase do “por que?”. Por que havia acabado? Por que ela ficou chata? Por que ele já não era mais divertido? Por que a TV é a portadora de vozes aqui dentro de casa? Por que fico mais tempo no escritório agora do que antes? Por que me incomodo com o jeito que ele come? Por que me chateio se ela fica em silêncio? Perguntas que vinham, mas não iam. Ficavam ali dançando em frente aos seus olhos como pequenos duendes imaginários e serelepes que lhes esticavam a língua pra fora da boca como que em sinal de gozação por não acharem as respostas. Depois chegou a fase de nem pensarem mais nas perguntas.
Foi aí que o Cachorro entendeu o que era ter mais que instinto. Sentiu culpa. Uma vez percebida, não tinha como disfarçar, fingir que não sabia de nada. Desde este dia, o animalzinho vivia de orelha em pé, rabo pouco abanado como um ventilador velho e cansado no meio de um verão tão infernal que nem ele mesmo consegue rodar de tanto calor, olhos sempre desconfiados e melancólicos, mas permanecia fiel aos dois. Ficava até zonzo na patética disputa de poderes quando um o chamava pra comer e o outro, para dar carinho. Rodava em torno de si mesmo no meio da sala, torcendo para um terceiro indivíduo aparecer de sopetão e resolver o impasse.
Um dia resolveram sentar e conversar. Frente a frente. Olhos nos olhos. Queriam um lugar com menos recordações e “pressões” que a casa deles, sem os detalhes dos dois pendurados em cada canto, sem estórias e histórias sussurradas de uma parede para a outra, sem o calor que o chão havia guardado depois de tantos passos de danças lentas e transas apressadas.
Tampouco queriam um lugar sem nada. Sem referência. Assim, optaram pelo café onde deu-se o primeiro encontro marcado. Ela sentou de costas para a entrada lateral. Chegou primeiro e imaginou que seria ideal se sentar ali, deixando o rapaz com vista para as idas e vindas do garçom para que ele pudesse exercer seu papel de fazer os pedidos. Fez assim tanto no primeiro encontro, quanto hoje. Já ele, chegou sem o cachorro no primeiro dia, mas hoje o trouxe como companhia. Os dois machos posicionaram-se de frente pra fêmea.
Optaram pelo mesmo cenário como que para recuperar um sentimento já ido. Buscavam boas lembranças para enfrentar um momento tão doído. Seria muito frio terminar algo tão lindo num lugar tão desprovido de… de nada. E “frio” era uma característica irreal para eles. Mesmo quando afastados, permaneciam com um laço invisível que os mantinha ali, próximos. Havia uma cumplicidade morna que os trazia a cada noite para a mesa de jantar para comerem juntos e trocarem os altos e baixos do dia. Conheciam os braços gigantes que os seguravam na cama a cada manhã e só os deixava levantar depois de se abraçarem e se  desejarem “bom dia”. Ainda sentiam fortemente o hálito fresco da voz sem rosto que lhes soprava dicas de que o outro estava aflito no outro canto da cidade e precisava de atenção. Suas entranhas só se acalmavam das notícias maravilhosas e dos êxitos alcançados quando estes eram compartilhados sob o teto da casa 23 da Rua Alvorada. Ao irem recapitulando mentalmente tais lembranças, notaram que haviam confundido tédio com sentimento, ou melhor, com o fim dele.
Sorriram em silêncio um para o outro em mais uma cumplicidade por sentirem-se duplamente  estúpidos. Perceberam que o mínimo de lembranças que queriam recuperar ao sentarem no café era, na verdade, o mínimo que precisavam para se dar conta do máximo que eram juntos. Sem muita frescura ou dificuldade, devido aos anos passados juntos, simplesmente mantiveram o sorriso, inclinaram-se para a frente e, ainda sorrindo, encostaram seus lábios. Não era muito um beijo, mas muito mais um “oi” e até um pedido de desculpa.
O Cachorro entendeu que instinto se petrifica quando em estado de alegria.
Os olhos fechados eram o esconderijo perfeito para a vergonha. 
O sorriso era uma faixa esticada com o dizer “bem-vindo de volta”.
O que era para ser o último beijo, virou o primeiro.
  
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7 Comments Add yours

  1. Odair Ribeiro says:

    Ju, the sky is the limit. Você está se aperfeiçoando com o tempo…
    Adorei esse texto, super legal!
    Parabéns mais uma vez.
    O problema de você estabelecer um parâmetro é que se gera uma expectativa, e com isso fica cada vez mais difícil manter o nível…
    Você está fazendo isso com muita sabedoria, espontaneidade, e agora com experiência também.
    Bela combinação, só pode sair coisa boa.
    Eu assisti ontem sex and the city 2, e tem um lance com a Carrie e o Mr. Big que remete um pouco ao que é manter o sparkling. Vale a pena, é divertido.
    Beijos!!!

  2. Lidiane says:

    Juju,

    Que orgulho! rs

    Nada fácil fazer o cotidiano virar poesia!

    Lindo!

    Beijoks

  3. LifeIsNow says:

    Bonito.. gostei e sorri aqui também..

  4. Felipe says:

    O mais legal é o que a pessoa que ler o texto pode se identificar com as situações! Mais ou menos como a Lidiane escreveu no comment dela, nada fácil fazer o cotidiano virar poesia!

    Você conseguiu fazer desta história, aparentemente simples, uma coisa que todo mundo quer pra sí.

    Todo mundo que ler este texto vai querer passar por essa situação só pra poder sentir aquele sentimento de “Início”.

    Eu digo início por que acho estranho essa história ser de “um recomeço”. Eles são pessoas completamente diferentes neste novo momento da vida. Eles são pessoas completamente diferentes do que eram no “primeiro início”. Eles já se conhecem, e a interação entre o casal vai se dar de uma forma completamente nova.

    O que eu senti é que eles não mudaram de capítulo, mas sim, terminaram um livro e começaram a escrever um completamente novo. Novas histórias, novas sensações….por isso um novo início!

    Bom, isso sou eu viajando em mais um post fantástico…….

    Beijos

  5. Silvinho says:

    Gostei…

  6. Daniela says:

    Lendo esse post tive aquela sensação gostosa de um final feliz… fui gelando a medida que o texto caminhava para o encontro, me imaginei sentada na mesa, no lugar dela, esperando ele chegar… uma mistura de sentimentos, ainda mais estando no mesmo lugar onde tudo começou, hahaha que delícia viajar assim!!!!!!!!!

    Não canso de dizer… JU VC É FODA!!!!

    Adorei! Adorei! Adorei!

    Ahh aproveitando, ficou lindo o seu blog, mais cara de site do que blog, vc se supera a cada dia!!!

    Bjão!!!!!!

  7. Juliana says:

    Lindo… poético… gostoso de ler… parabéns jubs!

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