31h13m

Era sempre engraçado e, ao mesmo muito estranho, não saber as horas naquele local cheio de relógios. Eram feitos de todos os tipos de material (cerâmica, madeira, ferro, todo de vidro – este era um espetáculo!  e até de plástico – o patinho feio dos relógios) e de todas as formas e tamanhos: redondos, quadrados, pequenos, médios, grandes, exagerados, com ponteiros chiques, horrorosos, ponteiros como qualquer outro, ponteiros cheios de estilo. Ainda assim, não se saberia a hora exata. Cada um marcava uma hora e havia alguns que se confundiam neles mesmos, marcando horas como 27:43h, 32:86h, 44:44h. Esta última era a hora que ela mais gostava de ver. Lhe remetia algo de equilíbrio: bem no meio do 8 e do 80. Passava dias esperando esta hora chegar, mas como não sabia como captá-la, encarava como um presságio de um dia maravilhoso e sorte quando encontrava esta hora e estes minutos no suntuoso relógio de madeira, com ponteiros curvados. Sim, os ponteiros eram curvados. Logo, os números eram posicionados totalmente fora de ordem. Foi só aí que se deu conta que a explicação de gostar das 44 horas e 44 minutos devido ao “equilíbrio” era meramente racional. Com um pouco mais de atenção nos ponteiros, observou que o formato que eles produziam era de um coração. Era absolutamente lindo ver um relógio marcando as batidas do tempo.

Adorava visitar seus tios mais velhos e sempre espionar o funcionamento da loja de horas. A própria tia parecia ter um barulhinho igual ao dos segundos a cada passo que dava, tique-taque. A sobrinha sempre pensava que ou ela era doida em ouvir tal som ou sua tia era mesmo mágica. Já o tio parecia produzir tantas horas na oficina que o tempo lhe era devolvido na mesma moeda: com tempo. Os anos pareciam não passar pra ele, pois o velhote não envelhecia.

A tia carregava consigo uma bolsa colorida cheia de cartas, pedrinhas, penas de pombo, docinhos caramelados e uma miniatura de tartaruga saindo de um ovinho feito com casca de ovo. Ela adorava o trajeto sótão-corredor-sala. Se direcionava à salinha com seu caminhar calmo, tique-taque, e leve. A sala era cheia de livros que pareciam cada hora ocupar um lugar diferente na estante. Como podia a tia ter tanto vigor e tempo para rearrumá-los sempre? A tia lhe explicou que esta tarefa nada tinha a ver com tempo, mas sim com o melhor relógio de todos: aquele que não tinha ponteiro. “Como não tem ponteiro?”, indagava a aprendiz de adolescente. “Não tendo. Não precisa. Ele que sabe que horas são melhores para que assunto e tarefa, portanto é sempre a melhor hora para fazer o que se quer naquela hora exata e não em nenhuma outra.”, respondia a tia, baixando um pouco as pálpebras. Um gesto que denotava ou sono ou astúcia. Tal expressão, seguida de tais palavras, deixava a menina um pouco confusa, mas ela acenava que sim com a cabeça, concordando mentalmente com a tia. “E onde está este relógio sem ponteiros? Nunca o vi…”. Nada surpresa, mas ainda assim um pouco decepcionada com a pergunta, a tia saiu de trás da mesa de escrituras, sentou-se numa poltrona confortável, fitou a sobrinha nos olhos e disse que lhe contaria, mas que era melhor que ela não acreditasse em nenhuma palavra que ele lhe diria. Era mais seguro, já que o mundo estava de pernas pro ar e tudo andava de cabeça pra baixo hoje em dia. “Bem diferente do meu tempo…”. A curiosidade típica da idade da menina era bem maior que sua capacidade de discernimento sobre ser verdade ou não o que lhe contaria a tia. Aguardou o relato que não veio. Quando refez a pergunta sobre o relógio sem ponteiro, a tia simplesmente sorriu e disse que “ainda não era a hora certa para esta atividade de tamanha revelação”.

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3 Comments Add yours

  1. Ana says:

    Adorei o texto! Sera que vc tem alguma interpretacao ou possivel explicacao para o horario que me persegue? 11:22

  2. Felipe says:

    “…portanto é sempre a melhor hora para fazer o que se quer naquela hora exata e não em nenhuma outra.”

    Frase perfeita!!!!

    I’ll keep that in mind!!!

    Beijos

  3. Od says:

    Esse texto combina ingenuidade e genialidade. Duas palavras parecidas mas tão diferentes.
    Nos transporta um pouquinho para o mundo de Alice, um lugar gostoso pra dar uma escapada de vez em quando…
    Adorei!!!
    Beijos,
    Od

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