Achados ou Perdidos

Vim à esta cidade após insistência diária do meu atual melhor amigo. Ele chegou há apenas duas semanas e eu tinha certeza de que estava me contando um monte de lorotas engraçadas sobre sua estadia. Como poderia ele, em curtos 14 dias, conhecer o filho do Prefeito, ter bebido por uma noite inteira com o músico famoso da cidade que estava de passagem, jantar algumas vezes de graça no restaurante mais badalado (naturalmente situado numa pracinha amigável) e, de quebra, estar se engraçando com uma moça local nem tão bonita, mas que era “seu número certinho”? Eu ria das peripécias contadas por telefone, pensando que uma delas deveria mesmo ser verdade: o safado jantava mesmo de graça. Só assim pra sobrar mais dinheiro pra encher a cara e, consequentemente, meus ouvidos com tanta criatividade líquida.

Enfim, peguei o carro e vim. Cheguei já no finalzinho da tarde. Animadíssimo, Nestor me recepcionou no hotel com seu típico kit-simpatia: seu sorriso, um forte abraço com direito a três fortes tapas nas costas e uma frase intrigante: “Seja bem vindaço à cidade onde ou você se encontra ou se perde de vez!! Qual você quer?”. Rimos juntos: eu sem saber o motivo e ele sabendo exatamente o porquê.

Chegamos onde passaríamos as próximas horas. Comecei a perceber que Nestor estava mesmo íntimo dos locais. Mal pisamos no bar e fomos recebidos por Susane com um caloroso uísque nas mãos. “Ahhhh, Nestor querido! Sempre muito bem vindo! Venha, sente-se com seu amigo” e me sorriu. Pra ele, distribuiu longos sorrisos seguidos de gritinhos animados. Aos goles, dei a típica olhada de macho, rápida e eficiente pelo ambiente. Reparava nas “saídas de emergência”, nas mais belas, nas mais possíveis e nas de-jeito-nenhum quando meus pensamentos foram cortados por Nestor. Segurando Susane pela cintura, me dizia que ela afirmava não poder ficar com ele por já ser casada. Complementou, puxando-a pra si em tom de pura brincadeira: “Livre-se destes preconceitos e pensamentos mundanos, mulher! Tome-me como amante!!”. Outro gritinho de Susane.

Não sou um cara bonito, mas tenho lá meus atributos. “Sabe quem é bonito mesmo? Johnny Depp. O cara fica bem até de dreadlocks e olho pintado. Vá se ferrar. Agora… eu queria mesmo é ser que nem o Clive Owen. Daquele eu tenho orgulho! Secretamente me vejo imitando alguns trejeitos dele.”

Após a primeira dose em silêncio, Nestor me puxou pelo braço e me levou ao bar. Fizemos uma rápida atualização minha das últimas semanas (dos dias dele eu já sabia de tudo) enquanto tomávamos outros uísques. Não sei dizer ao certo quantos foram enquanto eu falava, ele ria, eu olhava pros lados, ele ria mais alto, eu falava menos, os dois riam, ele começou a falar mais, doses apareciam na nossa frente, o bar começou a ficar interativo (posso jurar que as paredes daquele lugar pareciam se mexer…) e as mulheres iam ficando mais bonitas. Hummm, interessante. Resolvi dar umas voltas e constatei que o bar era interativo! Achei aquilo uma sacada genial do arquiteto, do gerente ou de sei-lá-quem-foi. Pode até ter sido do bartender, a meu ver. Não consegui ir muito longe, pois tinha que cronometrar meus passos com as luzes incessantes do local. Quando piscavam muito, não conseguia ver nada muito bem e aí ficava quietinho no meu canto (ou seria bem no meio da pista?) esperando para poder andar novamente. Parecia até pedestre esperando o semáforo sinalizar que poderia atrevessar a rua. Ria comigo mesmo. Me perguntei se Clive Owen já teria feito algum filme onde ele ficara rindo sozinho, como eu estava agora. Digo isso, pois algumas das minhas imitações do ator pareciam surtir efeito nas locais ou elas tinham seus padrões de aceitação (e de beleza) muito baixos. Percebi que estava fazendo certo sucesso.

Não sei bem como tudo aconteceu: se tive que conter o riso e atravessar o mar de luzes até as moças ou se elas vieram até mim. Por pura falta de opção, parei de pensar. Aliás, esqueci-me totalmente disso. Lembro-me somente de ter saído abraçado com duas mulheres no final da noite e até já respondia se chamavam “Rodrigo”. Meu nome é Pedro. Acho que uma delas era meio ruiva. Só reuni forças para, ao sair com uma debaixo de cada braço, dizer pro Nestor: “perder! escolhi perder-me!” e acenei por cima da cabeça de uma delas. Mesmo sem escutar a resposta dele atrás de mim, o senti sorrir.

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4 Comments Add yours

  1. Silvinho says:

    Boa…gostei !!!

  2. Carla says:

    Curti!!! beijosss

  3. Od says:

    Muito bom, divertido!!!

  4. Ei Ju,
    não sabia q vc escrevia tão bem ! podemos trocar figurinhas, né?
    http://meuociocriativo.spaces.live.com/

    bjsss

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