A menininha vermelhinha (The little blushing girl)

Era vez uma menininha que sempre enrubescia. Sempre. Fosse por alegria, por constrangimento, por nervoso ou por raiva, lá vinha a cor com todo vapor à sua face. Às vezes o rubor era tanto, que seu colo também ficava todo colorido. Não demorou muito pra perceber que sofria com isso já que ela não só não conseguia manter suas emoções em segredos, como elas eram mal interpretadas. Havia vezes em que sua raiva era confundida por vergonha e sua alegria, por nervoso. Cada vez era um mal entendido e ela, na tentativa de se explicar, ficava mais vermelha ainda.  Por muito tempo pensou em andar com uma sacola de papel na cabeça que só tivesse os 2 furos dos olhos. Desistiu, pois não havia sacola comprida o suficiente para esconder seu colo e ombros. Pensou em dizer que sofria “Hertz”, nome do alemão que descobrira a síndrome dos corações apressados: o cérebro recebia muito sangue devido aos batimentos extremamente acelerados do coração e, por isso, a cor vermelha nas bochechas. Desistiu rapidamente por motivos óbvios de contar tamanha alucinação. Resolveu, então, que roubaria a maquiagem da mãe e andaria sempre muito maquiada, cheia de blush rosa-avermelhado. Se sempre tivesse o rosto já naquele tom, ninguém notaria. Pois notaram. Não apenas que estava ridícula, como aquele bendito pedacinho sempre descoberto que a denunciava.

Certa noite foi deitar desconsolada e chorou. Chorou, chorou, chorou. Quando levantou-se da cama, horas depois, para lavar seu rosto, percebeu que ele estava pálido. Parecia morta. Pulou de alegria! Com pequenos saltinhos limitados ao espacinho mínimo do banheiro, a menina sorria como há muito tempo não sorria. A cor foi voltando. Voltou a chorar e a cor foi diminuindo. Eufórica, brincou na frente do espelho de chora-para-ri-chora-de-novo, colocando a língua pra fora como se em pleno desaforo para si mesma, arregalava os olhos e levantava os cabelos. Tudo isso chorando… Sentia-se no céu! Até escutou uma musiquinha tocando de fundo e pensou ser pra ela. Música diretamente dos anjos! Em tom de sambinha, cantarolava animadamente:

 “Há, há, há! É só chorar!” – e se olhava no espelho, oscilando entre gargalhadas e lágrimas!

Resolveu passar os dias chorando para poder saber, pela primeira vez na vida, como é ter uma emoção só sua. Queria sentir raiva e não ter que demonstrar para ninguém. Sentia-se acanhada pelos olhares das pessoas que a viam chorando sem parar, mas ninguém sabia que,  por dentro, ardia de vergonha. Foi aí que ela pensou:

“Ué…. de qualquer forma, sigo mascarando minhas sensações… Todos acham que estou triste quando estou, na verdade, feliz. Ninguém mais fala comigo porque só choro.”

Parou de chorar no mesmo instante e voltou a sorrir por fora também. O sorriso veio, naturalmente, acompanhado da habitual vermelhidão. Muitos entenderam que ela estava envergonhada pelas horas gastas chorando. Outros acharam que a tristeza havia finalmente chegado ao fim. Para os mais fantasiosos, a falta de lágrimas era simples: o poço havia secado. Pela primeira vez, ela deu de ombros a tantas especulações e saiu andando calmamente, com passos que pareciam estar a 2 dedinhos do chão. A meninota, apesar de muito jovem, entendeu que emoção é sempre secreta. Salvo quando altamente explícito, tudo é sempre interpretado de todas as possíveis maneiras. Vermelha como um tomate ao sol, sentiu que aí jazia a única e própria liberdade de poder esconder aquilo que cismava em vir à tona.

 

 

 

The little blushing girl – translated upon request! 🙂

Once upon a time there was a little girl who would always blush. No matter what the reason was: joy, nervousness, anger, anxiety… Whichever one, the blushing would appear at its full power on her little cheeks. Sometimes the colour came so strongly that even her neck would turn red. It wasn’t long before she realised she suffered with that since she couldn’t keep her feelings and emotions as a secret from others. Not to mention that they were often misunderstood by people: her anger would be mistaken for embarrassment and her joy, for tension. Over and over confusions would happen and she, in the attempt of explaining herself, would blush more and more. For quite some time she thought about going around with a paper bag on her head with 2 holes for the eyes. She gave up since no bags were long enough to cover her bosom and shoulders. She also thought about telling everyone she suffered from the terrible “Hertz” disease: a syndrome that made the brain receive too much blood due to accelerated heartbeats of a constant “in a hurry heart”. The disease was named after the German doctor who discovered it. The girl rapidly sent that excuse far away for obvious reasons of telling such an absurd hallucination. She then stole her mother’s make up and powered her entire face in a reddish pink tone. Disaster. People could see she looked a bit ridiculous in that weird make up and worse: they could also tell when she blushed anyway.

One night, when going to bed, she felt very sad and cried. She cried and cried and cried. When she got up from bed hours later to wash her face, she noticed it was pale. As pale as death. She jumped from joy! Giving tiny little jumps, due to the limited size of the toilette, the girl smiled like she hadn’t smile in ages. The colour started coming back to her cheeks. She then started crying again. The colour vanished. Euphoric, she played the newest invented game of cry-stop-laugh-cry-again in front of the mirror. She would cry and smile sticking out her tongue as if totally disrespecting her own image, open her eyes wide out, pulled her hair up. All the while crying… She was in heaven! She even heard a song being played somewhere and thought it was for her. Music straight from the angels! In a sweet but rapid melody, she started singing her own song:

“Hey, hey, hey! Crying is the way!” – while staring at her image between laughter and tears!

She then decided to spend her future days crying in order to know, for the first time in her life, how it was to have an emotion all of her own. She wanted to feel anger and not show it to anyone. She felt somewhat embarrassed by the staring looks people would give her, but it felt good to know that no one knew that deep down she was burning from embarrassment. People would think she was just sad. That was when a thought crossed her mind:

“Hold on a second… I’m still hiding my feelings… Everybody thinks I’m sad, but I’m actually happy! And now no one talks to me because I cry all the time.”

She stopped her crying at that very moment and smiled again (even from inside). The smile came naturally accompanied by the redness all over her face. Many thought the blushing was just a sign of embarrassment for spending so many days crying. Others believed  that her sadness had finally come to an end. For the more creative ones, the reason was simple: her well of tears had simply dried out. For the first time, she shrugged to all these guesses and kept on walking calmly with such little steps that made her seem to float 2 fingers above the ground. The little girl, though young, understood that emotions are always secret. Except for when clearly explicit, everything else is always interpreted in all possible ways. Red as a sun-dried tomato, she felt that here lay her only and unique freedom of choosing to hide whatever stubbornly tried to show itself off.

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One Comment Add yours

  1. Od says:

    Como a sociedade realmente tem um poder tão forte sobre nós, né? Será que isso é uma coisa só dos homens? Os animais também tem vários desafios, né? A luta pela sobrevivência, a disputa pela fêmea… Mas na deles, ninguém julga ninguém. Não sei o que é pior!!! 🙂
    Parabéns por mais um!! 🙂

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