Escalda-pés

Ela teve sua explosão abafada quando não pôde socar a cara do chefe. Honestamente, isso lá era coisa pra se dizer para uma funcionária em pleno colapso nervoso??

“Sugiro que faça um escalda-pés para relaxar!” – foi a solução encontrada pelo inergúmero para a nervosa moça que sentava à sua frente numa pequena sala, sem ar condicionado e tão lotada de estacas de papéis que mal se via o sujeito. Talvez as pilhas tivessem servido como proteção para a cara dele. Imaginou-se  jogando tudo no chão, o agarrando pela gola já puída e dando uma testada bem no meio do nariz dele. Algo como uma chifrada bem no meio do terceiro olho. Estaria suada de tanta raiva, olhos arregalados como que em transe e até babando um pouco ao dizer: “Sim, chefe dos infernos, estou com r-a-i-v-a!  Raaaaiiiiivaaaaa!!”. Esboçou um meio sorriso com os lábios tortos ao imaginar o som seco da porrada. Viu-se levantando triufante, afastando a franja molhada da testa e sorrindo como sorriem os loucos.

Ele, claro, entendeu que sua maravilhosa sugestão para os pés havia surgido efeito e acrescentou, triufante: “Ah! E tenho uma ótima dica! Use bolinhas de gude para relaxar ainda mais. Elas servem como verdadeiros massageadores!” – aquilo era superar o insuperável. Atônita, ela o fitou, tentando pensar. Sim, tentando… afinal de contas, o quê pensar após isto ter sido dito? Só podia ser um pesadelo. Cravou as unhas nas laterais da cintura (estava de braços cruzados) para ver se, por um milagre, aquilo era mesmo um ato do seu inconsciente e ela estaria dormindo. Não. Não acordou. ” O pior pesadelo é aquele vivido acordada…” pensou. Uma lágrima caiu do seu olho esquerdo. Quase o levou junto de tão pesada que era. Sentia o olho pendurado. Suas bochechas lembravam a de um cão Boxer. Seu rosto ardia como labaredas. O coração veio parar dentro do cérebro e as mãos começaram a tremer. Ele continuou, ausente a tudo que se passava à sua frente: “A água deve estar o mais quente possível! Aaahhhh, é uma delícia. Você vai ver!”.

No meio da frase ela se levantou. Em movimentos lentos, parecia soletrar cada palavra que saía da sua boca. O som era tão baixo que ele teve que se esforçar para ouvir. Ficou meio confuso com as palavras, pois escutou algo parecido com um xingamento, mas convenceu-se que era “tá, vou fazer”. Quando ela estava fechando a porta da sua sala, o descabido ainda disse: “Fico contente que tenha falado comigo. Gosto de ajudar as pessoas!”. Ele ajeitou-se de volta em sua cadeira de couro barato, de bem consigo mesmo. No outro dia, a procurou para saber como havia sido a milagrosa massagem, certo de que ela estaria sentindo-se renovada. “Nada como um pé quente para esfriar a cabeça!”, pensava enquanto ia em direção à mesa da funcionária. Ela não estava. O que ele encontrou foi o computador ligado com o seguinte dizer na tela de descanso: “vá se foder.” Então ele havia escutado corretamente no dia anterior o que ela havia dito! Sorriu mais uma vez para si, satisfeito por nunca errar…

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3 Comments Add yours

  1. Felipe says:

    Que raiva…..

    Eu juro que quis socar a parede….

    O “Vá se Foder” foi um ato necessário, porém pequeno a minha própria vontade!!!!

    Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

  2. Od says:

    Isso mesmo, Ju!! Põe pra fora, lava a alma. Os amigos estão aqui pra te ajudar! Conte comigo.
    Bjs!!

  3. Renato says:

    “…satisfeito por nunca errar…”. You have my sympathy…

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