Riso solto

Foi quando tudo parecia haver chegado ao fim que ela percebeu não se incomodar com mais nada. Adorou o sentimento e quis se prender a ele o máximo de tempo possível. Não deu. Até o tempo estava contra ela e o sentimento foi rapidamente absorvido por outro: o das cócegas. Aí foi puro desespero. As perninhas se sacodiam freneticamente, a voz saia cortada entre berrinhos misturados com pedidos de socorro, o ar não chegava aos pulmões. Em plena legítima defesa, deferiu o golpe onde conseguiu: sem mira certeira, atingiu, sem muita força, a côxa direita da irmã mais velha que caiu no chão. Ainda recuperando o fôlego, a mais nova estava meio caída em cima do sofá com suas mãos jogadas na barriga e a cabeça pendendo para baixo. Agora sua voz oscilava entre suspiros aliviados e risadas ainda ofegantes. A outra gargalhava em ver a irmã ainda passando mal de tanto que havia rido. Dado o cansaço e as risadas, parecia que as duas haviam corrido uma maratona com palhaços. Quando o sangue começou a pesar na cabeça dependurada da mais nova, esta se mexeu com certa dificuldade e olhou para a mais velha, ainda jogada no chão. Pediu trégua com o olhar, sem emitir uma palavra. A mais velha também respondeu sem palavras, apenas acenando um meio “sim” com a cabeça, virando os olhos para cima, em plena exaustão. Ambas suavam. A camiseta da mais nova estava grudada nas costas. Mal se viam as sardas da mais velha de tão vermelha que ela estava por inteiro. A musiquinha de ciranda ainda tocava no toca-discos ao fundo da sala onde brincavam. A mais nova estendeu as mãos em frente à mais velha como se para ajudá-la a levantar. Rindo ainda, a mais velha entrelaçou os dedos nas mãos mais leves que as dela e as puxou para si, rindo cada vez mais alto. A pequena não previa este ataque desavisado e, só por ter sido puxada, já gargalhava às alturas. Sua gargalhada abafou por completo a música e pelos corredores do apartamento 143 só ouvia-se deliciosas risadas de duas criaturinhas felizes, desocupadas e despreocupadas. Ou melhor, ocupadas e preocupadas somente em rir e fazer rir.

Advertisements

5 Comments Add yours

  1. Felipe says:

    Crianças praticando o melhor passatempo de todos: Rir!

    Queria ser o morador do apto. 144….só pra poder escutar essas risadas diariamente…..

    Quantas saudades desse tempo….

  2. Carla says:

    Que saudades de quando era criança e fazia isso com a minha irmã. Meu pai também sempre nos atacava, ele era o “COSMAN” hahahahaha. Que delícia! Sensacional.

  3. Dani Tedesco says:

    Esse texto me fez lembrar não da minha infância e sim dos meus dias atuais, ando fazendo isso acredita?? Hahaha, mas agora é mais adulta a brincadeira, ou mais infantil, não sei bem… é uma forma de “lutinha” hahaha onde a intenção é um imobilizar o outro, e para isso vale qq coisa, inclusive cócegas, apertões (golpes baixos, eu sei, mas fazer o que, são as minhas únicas armas!!!).

    Confesso que fico vermelha, perco o ar, grito, esperneio, peço socorro e sempre perco, pq será né?? Só pq o meu adversário tem quase o dobro do meu peso e mede no mínimo uns 20cm a mais do que eu?? Deve ser…

    Mesmo sendo derrotada em TODAS as “lutas” adoro competir, pq o final é sempre o mais gostoso, e vcs já devem imaginar como seja… não faltam risos soltos!

  4. Angela says:

    Hahahaha, adorei… cheguei a escutar as risadas, que legal… De vez em quando eu escutava mesmo era engasgo geral, você ficava sem ar e era um terror… uuiiiiiiiiiiii….

    Bom lembrar coisas gostosas da infância, well done! Beijos e saudades!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s