Missão impossível

A cidade era tão grande, ruidosa, ocupada, quente e tão asfaltada que dava asfixia. Tudo, por ser tão turbulenta, poderia passar desapercebido. E quase passou mesmo. Demorei meses, anos até para enxergar que deveria ter me feito meus olhos saltarem na primeira vez que o vi. O vi, mas não o enxerguei de verdade. Afinal de contas, quantos círculos vermelhos há pintados nos muros ou calçadas de qualquer cidade? Quando reparei nele, hipnotizei. Fiz pessoas trombarem em mim com minha súbita parada do acelerado passo que vinha dando. Alguns reclamaram com palavras incompreensíveis que mais pareciam grunhidos, mas nada me fez sair da posição ereta e estática na qual fiquei. Depois de não sei quantos minutos ao certo, olhei em volta em busca de olhos cúmplices: alguém precisaria estar ali perto me observando , sentindo comigo esta sensação de descoberta ou de que finalmente você está no lugar certo fazendo o que você deveria fazer, na hora certa. Olhei de forma rápida, inicialmente. Um olhar de quem está perdido em meio à multidão. Depois resolvi fechar os olhos e, ao abri-los novamente, demorar-me um pouco mais em cada detalhe, em cada esquina, em cada janelinha escondida atrás de outros prédios (alguém poderia estar observando-me à espreita, eu precisava ser detalhado), em cada pessoa que passava, em cada carro que lentamente passava por mim (agora eu reparava que cada um tinha um motorista, não era carros fantasmas que simplesmente vagavam pela cidade para que ela se ocupasse), até nas crianças eu reparei bem. Recebi língua pra fora e careta de várias, até imaginei que isso pudesse ser um sinal, um disfarce para que eu os seguisse e decifrasse o grande contexto. Fiz as caretas de volta, com mais afinco até, para que elas percebessem que estava envolvido, sim, mas também perdido e aguardava indicações futuras. Não surtiu bom efeito e resolvi fixar-me nos pedestres, mendigos (como eles eram suspeitos!) e motoristas. Nada. Quanto mais as pessoas pareciam ausentes ao grande círculo (sim, a esta altura, parecia um sol brilhando somente para mim), compreendi que só eu o via! Erámos destinados a algo! Confesso que minha alegria foi tão avassaladora quanto o pavor que tomou conta de mim ao perceber que tudo dependia de mim, mas eu não fazia a menor ideia do que este “tudo” era.  Ainda parado com a mochila nas costas (que, aliás, já havia deixado minhas costas todas molhadas de suor), parei de olhar para as pessoas e vi os 2 bueiros. Me pareceram estrategicamente posicionados. Um em cada lado da esquina. Haveria, então, uma segunda pessoa necessária para a tal missão do círculo vermelho? Um bueiro era meu e o outro, da outra pessoa. A bola vermelha havia sido pintada bem na quina, deixando uma metade para cada lado. Sim! Haveria de ser esta a resposta. Mais uma pessoa era esperada. Respirei aliviado. Eu não era o único perdido. Ao mesmo tempo, percebi que eu era o primeiro e seria minha a responsabilidade de encontrar a outra pessoa do bueiro. Não queria que ela se sentisse tão perdida quanto eu e quis deixar um sinal. Corri até minha casa, procurei por qualquer objeto vermelho que eu tivesse. Como sou uma pessoa bem misturada na cidade, posso dizer que vermelho não é uma cor que tenho no guarda-roupa. Nem em acessórios. Bom, o fato é que nem tenho acessórios. Revirei tudo, deixei a casa de acordo com meu estado emocional, quando me deu o estalo: a bicicleta! Corri até a garagem e pedalei o mais rápido que pude de volta ao local marcado. Posicionei a bicicleta contra o muro e fotografei. Precisaria ter provas no futuro de que eu havia sido realmente o escolhido. Toda precaução é pouca quando tratando-se de assuntos tão grandes. E talvez tenha sido justamente por este cuidado excessivo que meu parceiro não tenha me encontrado. Ambos cautelosos demais, tímidos demais, desconfiados demais.

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2 Comments Add yours

  1. Felipe says:

    E cada vez mais você consegue colocar em seus personagens uma profundidade…….é possível imaginá-los como pessoas reais……

    Seus textos, não somente este, mas principalmente os últimos, são quase tridimensionais. Vamos lendo e a cada final de frase conseguimos visualizar nas nossas cabeças exatamente a cena. Independentemente da perspectiva de cada leitor! Seja em primeira ou terceira pessoa!!!

    Muito bom!

    Parabéns!!!

    Beijos!!!!

  2. Carla says:

    Totalmente de acordo com o Felipe. beijão

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