Brasileirinha

Ao acordar, você realmente nunca sabe o que vai acontecer dali pra frente com seu dia. A maioria das pessoas, e eu me incluo nisso, nem cogita o assunto. Levanta como que num transe, vai ao banheiro, toma banho, escova os dentes, cumprimenta a família ou alegra-se por não ter estas obrigações se morar sozinho, toma café ou seja lá o que for, mas faz tudo num modus operandi bastante determinadinho.

Não fugi à regra naquela fatídica quarta-feira ensolarada. Levantei, apertei a função “snooze” do despertador umas 3x, cochilando profundamente em cada um dos intervalos (com direito a sonhos!) até pensar que era hora mesmo de me levantar. Não havia como escapar. Reuniões me esperavam… Depois de um banho com água quase gelada pra refrescar do calor que tomava conta da cidade e das pessoas há semanas, fui ao closet escolher uma roupa.

Sou prática, mas estilosa. Gosto de estar apresentável e me sentir bonita. Sim, “sentir” que estou bonita, afinal, bonita pra mim pode ser esquisita para o outro. Tinha várias pessoas importantes agendadas nesta bendita quarta e quis colocar algo leve (por conta do sol que inundava meu quarto com seus raios), mas também de impacto. Profissional, mas casual, sem muita frescura. Ali estava o outfit perfeito. O achei ali, bem no meio de tantos outros vestidos. Por ser longo, estava até meio amassadinho nas pontas, confesso. Mas não atrapalhou nem um pouco o glamour nada exagerado dele. Ele se fazia presente, mesmo sem querer. E eu o quis. O vesti, me olhei no espelho e a certeza de que havia escolhido corretamente veio quando calcei os peep toes de saltos bem altos, quase 12cm. Um luxo, pensei. Agora era só secar o cabelo no mesmo estilo do vestido: “estou linda, mas nem me dei o trabalho”. Dito e feito. A maquiagem leve, mas também marcante deu o tom certo ao bronzeado da minha pele. Impecável.

Foi assim que saí de casa, com ar triunfal e de quem sabe pra que veio. Meia volta na rua e olhares se viraram em minha direção. Mulheres com cara de humpf (adoro!) e homens com cara de huuummm (também adoro!). Segui caminhando, fingindo que não os via por detrás dos óculos escuros igualmente estilosos e presentes. Sorria por dentro, mas por fora, exalava um tom blasè de estou tão apressada e focada que nem vi vocês

No decorrer do dia tive ótimos resultados das reuniões, negócios fechados, lista de tarefas sendo cumpridas, assuntos sendo resolvidos e a sensação de sei a que vim se desenvolvendo ainda mais. No final da tarde meu celular tocou e era um amigo gay que sempre tinha os melhores contatos das melhores festas nos melhores locais e com as melhores bebidas. Por dentro respirei aliviada de que tinha vindo com a roupa certa, pois teria que ir direto dali. Afirmei que, claro, estaria na casa dele em meia hora. Impossível perder uma festa daquelas. Um lançamento de nova marca nacional de produto concorrido.

Fui. Em 27 minutos o esperava em frente à portaria do seu prédio, com o porteiro me cumprimentando espontaneamente pelo interfone e dando risadas comigo que respondia de dentro do carro, com a janela aberta. Quando meu amigo chegou, descreveu um pouco o local da festa e disse que o must eram as escadas rolantes. Cada degrau era iluminado por uma cor diferente, sendo que eram todos feitos de material transparente para vermos as “engrenagens” por dentro (sim, foi esta a palavra que ele usou). Achei o máximo aquilo! Escada rolante seethrough!! Gente, como não haviam pensado naquilo antes para um evento de moda?! Animadíssima para ver tais escadas rolantes (sim, haveria mais de uma!) no tal evento que foi batizado de “CRISTAL”. Quando chegamos, todos os pontos de luz transmitiam esta ideia de luz transparente-colorida e se alternavam a cada 3 minutos.

Com taças de cristal, naturalmente, garçons passavam servindo champagne bem gelada e apropriada para a noite. Me servi de umas 4 taças até chegar ao espetáculo no meio de um saguão enorme. Pessoas faziam fila para subir e descer as escadas animadas. Pareciam grandes medusas, águas vivas que subiam ao encontro de uma nave-mãe. Um absurdo. Genial foi a única palavra que consegui emitir diante de algo tão simples e conhecido, mas apresentado de forma tão inovadora. Adultos pareciam crianças provocados por tanta luz, brilho e… transparência.

Agarrei uma taça que passou flutuando por mim e a bebi quase num gole só, encantada pelas escadas. Detesto filas, mas aquela valeria a pena. Me coloquei ali atrás de uma moça que mascava chicletes de boca aberta e concentrei-me nas cores para não escutar o barulhinho irritante. Como não foi o suficiente, tomei mais uma taça enquanto a fila andava a passinhos. Até agradeci o andar estar devagar porque eu mesma estava já devagar. Agradeci também quando cheguei perto da escada e me lembrei que havia corrimão na bendita, pois as taças tomadas dançavam dentro da minha cabeça. Apoiei-me e fitei os olhos pra baixo. Lindo. Via-se a tal engrenagem, as luzes alternando as cores nos degraus que se mexiam lentamente e também via-se o grupo de pessoas lá embaixo olhando para cima, alguns de boca semiaberta. Adorável! Estranho foi quando senti algo me puxando pra trás e pra baixo. Era como um empurrão vindo de cima, me levando pra baixo com um força desproporcional à velocidade: era lento, mas forte. Meu corpo estava sendo sugado. Meu Deus, serão estes degraus verdadeiras medusas do mar que estão me puxando pro fundo do oceano?? Ao me dar conta do pensamento, percebi que havia bebido demais. Mas a sensação não parou. Ao contrário, se intensificou cada vez mais e vi pessoas se virarem para mim. A menina do chiclete abriu os olhos tanto quanto boca e me disse:

– “Rápido, moça!! Puxe o vestido pra cima!! Vai!!”

Vestido? Pra cima?!!

Olhei pra baixo e a escada-medusa estava mesmo me sugando, me entrelaçando com suas falanges coloridas para dentro das engrenagens. Não conseguia soltar-me. Puxei, fui puxada, tentaram parar a água-viva de seu movimento incessante, mas nada deu resultado. Até que alguém falou:

– “Cortem as alças do vestido! Ela vai se machucar, andem, cortem!!”

Não faço ideia de como cortaram, imagino que tenham sido outras falanges pontiagudas em formatos de mãos, mas cortaram. E meu vestido foi descendo pela escada, sendo sugado, devorado pelas malignas engrenagens coloridas. A música parou, as pessoas congelaram-se em suas posições agora com as bocas totalmente abertas e me fitavam sem piscar. Passado o susto, me olhei. Ali estava eu, de pé, de salto alto preto, calcinha transparente azul e sutiã também seguindo o tema da festa: transaparente-colorido-verde. A reação não poderia ter sido a melhor: aproveitei e subi no salto, soltei os cabelos loiros e gritei, até para quem não quisesse ouvir, enquanto apontava para o azul, verde e amarelo: “E VIVA O BRASIL, MINHA GENTE!!”

Aplausos e urros de alegria, seguidos de um samba para compor a tragédia.

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One Comment Add yours

  1. Odi says:

    Simplesmente sensacional!!!! Adorei!!! O “humpf” e o “hummm” foram geniais.
    A criatividade em alta, tudo de bom. Parabéns!
    Adoro ler seus posts.

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