Destemido

on

Aquela nada mais era que uma noite comum. Tão comum que eu nem sabia mais se já era amanhã ou ainda era ontem. As noites eram iguais. Idênticas. Por fim descobri algo que ninguém sabia ou sequer imaginava: um erro da natureza. Eu estava vivenciando noites iguais. Ou era um erro ou estava preso num feitiço do tempo. Como ainda me restava mais lucidez que senso de humor fantástico, praguejei contra mais uma noite de pura e simples insônia. Como aquilo vinha acontecendo muito mais vezes que eu gostaria, conhecia os sintomas, os nervosos, as mexidas incessantes de um lado pro outro na cama, os batimentos cardíacos e, quase que ironicamente, os pensamentos pareciam fazer um mantra que me confortava. Imaginem dormir ao som dos pensamentos que querem te acordar? Vejam só, aqui estava eu a descobrir mais um erro da mãe terra.

Mas aquela noite, não sei como e muito menos o porquê, foi diferente. Me deu um estalo por dentro, parecia mesmo que alguém havia juntado os dedos polegar e do meio bem dentro do meu cérebro e feito “tic”, um estalado forte de dedos. Ao mesmo tempo, acenderam um abajur fraco, gostoso, quentinho. Conseguia ver tudo lá dentro. Sorri  ali parado, esperando para ver o que viria, como se fosse um circo e eu aguardava, meio abobalhado, pela próxima atração. O coração se acelerou novamente, mas desta vez os batidos eram vibrantes, nervosos de alegria, um pulsar vivo, bem distinto daquele ansioso por algo que não viria (o sono). Senti-me contente. Bem ali, deitado e bem acordado, senti-me simplesmente contente. A luz tremeluzia dentro da minha cabeça e imagens mentais continuavam a vir, atrás da cortina dos meus olhos. Vi sensações, escutei cheiros, provei sons. A tudo, eu sorria. Me vi caminhando, senti o vento, abracei o camarada que sempre me vendia cigarros avulsos no ponto de ônibus e por aí iam e vinham meus sentimentos mentais, minhas certezas irreais. Percebi que ali estava a grande sacada! Se podia sentir-me assim, tão contente, mesmo na hora mais miserável do meu dia, poderia muito bem causar-me isso novamente ao levantar-me (não ao acordar-me, pois acordado eu já estaria). Sensacional, pensei! Tudo ficou claro e tão, mas tão óbvio que senti-me estúpido por não ter pensado nisso antes. Estava tudo ali. Ou melhor, aqui dentro. “Tão ao meu alcance, tão distante, tão real…” Até desta música lembrei. Tudo vinha, fluía. Imaginei-me algumas horas dali, vivenciando tudo isso de verdade. Andando pelas mesmas calçadas de sempre, mas agora com pés pesados ao chão e ombros leves. Com a cabeça ereta e o pensamento torto… Ah! Como seria bom! Fiquei ansioso por ir-me logo, levantar-me, mas contive-me. Sentia-me forte. Destemido. Nada seria igual. A realidade me era desconhecida agora. Fiquei ali até o despertador tocar. Pé-pé-pé-pé, soou o feliz ao meu lado e lá fui eu.

Após o banho mais desperto de muitas manhãs, desci glorioso pelas minhas escadas como se, no andar de baixo, houvesse uma coroação a me esperar. Peito aberto, queixo erguido e mãos decididas deslizavam pelo corrimão. Saudei a sala com um leve balançar da cabeça e envolvi o molho de chaves em minhas mãos ainda quentes da escada. As chaves estavam frias. Aquilo me chamou a atenção. Me distraiu, me incomodou, me tirou do eixo. E com passos mais leves e trêmulos, fui até a porta. Dali não passei. O frio da chave era tão intenso que nem cabia na fechadura. A porta negou-se a receber uma sensação tão desagradável. Pedi-lhe desculpas e recuei. Deixei as chaves caírem para não me gelar por inteiro e voltei pra cama. Quem sabe recuperaria um pouco de algo lá?

 

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