Exposição espontânea

Estacionaram o carro em vaga achada como que por milagre: quase em frente ao local de destino em rua disputada, especialmente à noite, naquele horário. Se entreolharam felizes e, após manobra curta e certeira do namorado, ela aproveitou o movimento de virar o tronco pra trás para pegar sua bolsa e roubou-lhe um beijo rápido, sorrindo. Saíram do carro e logo entrelaçaram os braços com ele afagando as costas dela com a outra mão, enquanto ela encostava a cabeça em seu ombro direito. Estavam visível e naturalmente apaixonados. Atravessaram a rua conversando sobre o que imaginavam comer e a gargalhada dele ecoou, de forma bem leve e até mesmo contagiante, quando ela brincou ter tamanha fome que queria entrada, salada, prato principal (carne ou salmão?) e o famoso crème brûlée de sobremesa.

Entraram. Acomodaram-se em cantinho gostoso, bem escolhido para conforto do casal que parecia querer pouco contato com o mundo externo e real fora deles dois. O garçom veio prontamente atender e pairou certa dúvida no ar sobre qual dos 3 era o mais simpático. Pediram vinho branco, afinal a noite era quente. Quando os primeiros goles foram bebidos, o trigésimo sétimo beijo foi trocado. Carícias, carinhos, risadinhas, tudo muito favorável e de encontro à temperatura da noite. Ela usava uma blusinha branca que deixava seus ombros e colo bem à mostra. O jeans surrado na altura do joelho combinava com certa maestria com os saltos altos delicadamente femininos e provocantes. O batom iluminava a boca e o blush a deixava saudável. O cabelo solto e jogado arrematava a composição.

Só quando ela levantou para ir ao toilete que percebeu-se já um pouco embriagada pelo vinho que beberam com certa velocidade. Riu, olhando para ele sobre o ombro, quando percebeu que teria que concentrar-se para manter o equilíbrio. Atravessar o estreito corredor do mezzanino para chegar ao banheiro do outro lado parecia quase um jogo. Ainda rindo sozinha e prendendo o cabelo atrás da orelha, sumiu pela portinha do banheiro individual. Percebeu a janela à sua direita e olhou pra fora. “Que lindo! Me sinto verdadeiramente numa casa em Paris. Esta janela e a decoração não parecem de restaurante. E a vista daqui com esta loja linda bem à frente não parece com a minha cidade.” E fixou o olhar no homem alto e aparentemente charmoso que tirava fotos da vitrine da loja linda. Ele estava envolvido com os detalhes e ela não soube dizer se ele estava mais atento à loja ou à máquina fotográfica. Debruçou-se e ficou olhando, atenta. Deu um salto pra trás quando ele se virou rapidamente, como se atraído pelo olhar dela, e a encarou ali na janela. Fitaram-se uns minutos. Como bicho assustado, ela se aproximou novamente da janela. Ele pegou a máquina e a aproximou também dele: com o zoom. Ela viu sua mão movimentando a lente e, entendendo o que ele fizera, soltou uma gargalhada abafada. Sentia-se corar. Só não sabia se por timidez, volúpia ou simplesmente pelo vinho. Olhou pra baixo, mas permanecia com o sorriso nos lábios. E ele, com a máquina no rosto. Escutou-se o primeiro click. Ela levantou os olhos num misto de curiosidade e espanto. Outro click. E mais um. Cada click remetia à palavras numa conversa e isso os aproximava. Foram alguns clicks até ela congelar-se como estátua e, com olhar altamente penetrante, deixou as alças da blusa caírem. Desnudou-se parcialmente ali dentro, mas totalmente para os olhos dele. Os clicks aumentaram de velocidade como se correndo atrás de algo que já tivesse ido. A corrida acelerada da máquina a deixou ali, imóvel. Foi só quando ele afastou o aparelho e mostrou seu rosto inteiro, também com olhar fixo ao dela, que ela caiu em si. Ou foi por isso ou pelo namorado que já batia na porta, preocupado com a demora. Subiu as alças, ajeitou o cabelo que nem havia sido tocado e molhou os lábios apressadamente. De relance, o viu levar o indicador à boca em sinal de “silêncio”. Entendeu o sigilo mútuo e acenou com a cabeça. Abriu a porta sorrindo de modo desajeitado e deu a mão esquerda pro namorado.

Vi tudo acontecer, pois moro no prédio bem de frente ao restaurante. Estava sentado na minha varanda ampla, de prédio antigo, justo no 1º andar. Aqui fica perto o suficiente da rua para ver bem em detalhe o rosto de cada passante e ouvir cada palavra por eles faladas. Eles prometeram silêncio e segredo um ao outro. Eu não.

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One Comment Add yours

  1. Yossarian Dreamcatcher says:

    the brain has a specific kind of neuron called mirror neuron – it fires both when an animal acts and when the animal observes the same action performed by another.

    you see, what we see, in a way, we do.

    what are you?

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