Sem planos, dá surpresa

Tudo começou com grande agitação dentro da menina. Como vinha passando por maus bocados profissionais há 1 ano, alguns outros campos da sua vida começaram a desandar também. Principalmente a memória. Vinha tendo lapsos de memória com coisas simples, até mesmo banais, mas cuja frequência era propocionalmente inversa à simplicidade das coisas esquecidas. Se algo assim se dava com assuntos simples, ela temeu pelos verdadeiramente importantes. Apesar de jovem, começou com artimanhas de pessoas mais velhas e esquecidas: como estamos em era tecnológica, abusou dos recursos. Lembretes mil pelo Outlook Calendar e alarmes pelo celular. O máximo deles foi quando pegou-se deixando um lembrete para si exatamente assim: “já fez xixi hoje?” – e o pior foi atestar que o alarme surtiu efeito.

De qualquer forma, o pânico da vez era outro. O aniversário do namorado estava chegando. Esquecer da data ela certamente não se esqueceria, mas os brancos que ocupavam a mente da moça em sua totalidade não davam espaço para nenhuma ideia criativa chegar. E olha que ela até é criativa (dizem…). Pensava em várias possibilidades, mas não se convencia de nenhuma. Também nem sei se vale mencionar, mas aconteceu (em mais de uma ocasião) que ela parecia ter chegado ao presente ideal, mas ou estava tomando banho ou ao lado do namorado almoçando (sem ter onde anotar) ou fazendo qualquer atividade que depois a bloquearia da bela lembrança da ideia.

Na noite prévia, sugeriu cinema e lá foram os 2, o casal bonitinho, comer após terem perdido a sessão. No jantar, ela olhou pros pés do moçoilo que, há quase 1 ano usava o mesmo par de botas que comprara já na companhia da namorada. Ele as adorava e usava sempre que a roupa permitia. De sopetão, quase sem pagar a conta para garantir que a loja não fecharia, o puxou pelos corredores e chegou, ofegante, na porta da loja. Sentiu um misto de alívio por ter pensado em algo, mas também frustração por não ser nada como ela queria: original. Dentro da falta de originalidade, inventou algo possível. Comprou 2 pares sem que ele se desse conta e escreveu no cartão que a loja dispunha no balcão: “Que estes te levem pros caminhos certos e lindos. Um é para ir. O outro é para você voltar. Bons primeiros passos. Com amor.” Sorriu um pouco menos insatisfeita, bem ao contrário do rosto iluminado do rapaz ao ler as palavras criativas, de última hora.

Foram para casa felizes e aproveitaram muito o jantar na noite seguinte, que era o dia exato. Comeram bem, tomaram vinhos e trocaram vários sorrisos, carinhos e vontades futuras. Ela pediu que ele fechasse os olhos e vestiu-se com chapeuzinho de festa infantil na cabeça e ficou sorrindo pra ele. Também depositou, na palma de sua mão, um mini-mini caderninho com o Ganesha desenhado na capa (ele tem um tatuado no braço direito). Quando ele abriu os olhos, entregou ter achado o máximo o namorada “pagar o mico” de chapéu no fino restaurante. Ela estendeu outro chapeuzinho em sua direção e ficaram ambos comemorando o aniversário a dois, mesmo que com várias pessoas em volta. Quando abriu o caderninho, ela anunciou: “I come bearing gifts”. Ele não entendeu, achando que o caderno e o chapéu eram os presentinhos. Só depois de ler a dedicatória que ele entendeu que cada folhinha continha um “vale-algo” por ela inventados e escritos. Tinha desde “vale um frapuccino”, “vale beijos”, “vale sorrisos”, “vale passeio de patins” ou “vale restaurante japonês” até “vale salto de paraquedas” e “vale ingresso do Whitesnake”. Um dos mais valiosos: “vale um pedido de calma em plena TPM”. Sensacional! Ele abusou um pouquinho e disse, sorrindo: “Este não tem validade, né? Posso usar várias vezes, por favor?” Como era seu dia especial, ela cedeu ao pedido. Este presente era, além de justo, justíssimo, também valioso, valiosíssimo.

Com ajuda de amigos e alta participação na ideia que teve, conseguiu montar uma festa surpresa pro namorado dentro de 48h. Deixou balões, línguas de sogra, chapeuzinhos e enfeites escondidos na despensa para uma amiga cuidar ao chegar. A outra amiga ofereceu-se para comprar os quitutes para que o rapaz não desconfiasse de nada. A namorada disfarçou levando o rapaz para ir e vir de lugares para enrolarem o suficiente e dar tempo de todos chegarem. Lembrou-se, em pânico, de algo primordial que tinha se esquecido (vide 1º parágrafo…): deixar a porta destrancada e avisar na portaria para liberar a entrada de todos. Estava na rua fazendo hora e teve que, de repente, inventar algo para ir pra casa. A saída foi forjar uma bela diarreia. “Lindo”, mas também justificável. Culpou o cardápio apimentado indiano que haviam comida havia poucas horas. Bem acreditável. Chegou em casa, levou o plano até o fim, fingindo ir ao banheiro e tudo. Depois do banho, saiu correndo, avisou ao porteiro, abriu a porta e aí veio a questão: eles teriam que estar fora de casa e não dentro! OK. Deu uma de doida, se arrumou toda, abriu vinho e disse, com 2 taças na mão: “vamos dar uma volta pelo condomínio tomando vinho? Está uma noite tão linda!”. Ainda bem que sempre foi meio maluquinha. Vindo dela não pareceu tão bizarra a ideia… Foram. O queixo dele denunciava que o frio estava intenso. Estava pra ela também, mas ela disfarçava animadamente, falando sobre vários assuntos ao mesmo tempo, rindo e gesticulando… tudo para que ele não tivesse tempo de propor uma eventual volta pra casa em busca de casacos.

No fim, tudo deu certo, os amigos a avisaram via SMS: “we’re in!” e puderam ir pra casa. Chegaram para ver balõeszinhos pendurados, assobios, bolo e risadas. Ela se questiona se foram tiradas fotos na festa. Não lembra bem, mas desta vez, tudo bem se não tiverem tirado. Desta vez, ela não sentirá medo de se esquecer que a festa aconteceu, nem dos acontecimentos prévios… certamente cada sorriso que ele deu a fará lembrar de tudo.

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5 Comments Add yours

  1. Mi says:

    Que lindo…Como sempre!

  2. says:

    impressionante como, mesmo esquecidas, as pessoas conseguem surpreender.
    delicioso como, rir da história dos outros, faz bem.
    e surpreendente é que mesmo sem planos, dá surpresa!
    cheers 😀

  3. Ana says:

    Jú, muito lindo., adorei….grata pelo carinho
    bjs querida…

  4. Felipe says:

    1 pessoa entre bilhões foi marcada neste dia. Incrível não?

    Acho fantástico a capacidade que algumas pessoas têm de criar tanto com tão pouco. Um presentinho aqui, uma historinha ali, uma diarreia e alguns amigos dispostos, junta-se todas estas pequenas coisas e pronto, um sentimento inesquecível para uma pessoa em particular foi criado!

    Visões e sensações que ficarão para sempre na mente deste sortudo!

    :o)

    Essa namorada sem dúvida conseguiu atingir o objetivo! E estou esperando ansiosamente pelos próximos….

    P.S.: T.A.

  5. Carol Rabelo says:

    Ju,
    Todas as vezes que leio suas historinhas (que são suas verdadezinhas), me emociono e tenho vontade de te dar um abraço.
    Sou feliz por ter tido a brilhante “ideia” de ligar para agradecer a alguém que recepcionou um e-mail meu, num dia qualquer.
    Adoro você, soul mate!
    Beijos!

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