O triste fim dos 7 anões

A tragédia deu-se numa tarde ensolarada de sexta-feira dentro de uma mini van. O adjetivo podia ser levado ao pé da letra dado que a van era mais mini que as minis comuns. Tinha sido projetada para transportar aqueles sete amigos. Os 7 anões. Porém, claro, sua capacidade era para 8 pessoas a fim de acomodar também o motorista. Os sete anões apreciavam certo luxo e este era um deles. A van era compacta, mas confortável, com assentos em tons de cinza chumbo e listras, quase imperceptíveis, brancas. Lembrava um belo terno.

O motorista, com os anões há anos, fazia da mini van sua mini casa. Deixava até um sachêzinho perfumado pendurado no retrovisor. O olor era semelhante à canela e isso denunciava suas raízes orientais. Chinês, Xun parecia ter aceito aquela oportunidade de conduzir os 7 para cima e para baixo não por gosto à profissão, nem tampouco necessidade. A decisão parecia ser somente por algo bem pessoal: elevar sua autoestima. Afinal, ao lado de anões, até chinês fica alto. Fora isso, tinha a certeza de que seria bem quisto por este pequeno grupinho. Seres tão amigos entre si certamente teriam espaço para mais um seus corações. Seria como a van: projetado para caber oito.

Xun sentia-se um rei ali dentro da van, pois conhecia cada botãozinho com a palma da mão. Às vezes tinha certeza que o veículo inteiro caberia na palma de sua mão… Às vezes imaginava-se segurando-a em sua mão esquerda estendida bem à sua frente, olhando para cada um de seus sete chefes. Todos teriam medo da altura e gritariam freneticamente com suas agudas vozes de dentro da van. Xun não os escutaria bem, pois estaria no alto de um despenhadeiro ou cascata. A água abafaria qualquer som. Era como assistir um filme mudo, porém em cores… Pediria que fizessem silêncio levando o polegar aos lábios, mas à medida que os anões se enfureciam, o polegar era substituído por toda sua mão cobrindo a boca para tapar os risos abafados de Xun. Como todo bom chinês, ao rir, os olhos de Xun se fechavam e ele parecia rir com o rosto inteiro.

Por vezes, ele se imaginava indo buscar os “sete mandões” (como Xun os apelidou) e os deixando em novo endereço. O local guardaria um prédio moderno, enorme, que fazia com que se sentissem ainda mais mini. Boquiabertos e encantados por tanto luxo, os sete se atropelariam para uma rápida saída do carro em direção à entrada onipresente. Mal sabiam que o interior de tanta beleza oferecia bilhete somente de ida para um trem fantasma sem fim. Xun os aguardaria do lado de fora, de pé encostado na van com o pé direito cruzado na frente do esquerdo, descascando uma laranja lentamente e com um leve levantar do lábio que confundia-se com um sorriso ou um defeito no rosto. De lá, poderia escutar os sons dos sete bundões do lado de dentro da eterna montanha russa e ria sem saber se estavam se divertindo, se cagando de medo ou se era somente diversão dele próprio, somente de Xun. Xun, o grande chinês… Ainda seria chamado assim por todos. Seria ainda querido. Aclamado até.

Na ensolarada tarde do dia 13 daquele mês, Xun encontrava-se especialmente disposto e cheio de ideias. Sentia que a noite havia trazido suficiente descanso e sonhos agradáveis. Poderia também ser por conta do belo almoço. Cumpriu sua rotina caseira pós refeição com perfeição. Parecia um animalzinho adestrado. Seus movimentos eram impecáveis, quase robotizados. O interessante, que ninguém poderia saber, é que eram mesmo. Por trás de cada ação havia um pensamento bem diferente do que Xun executava. Escovava os dentes e imaginava o dia a dia dos sete chatões. Como eles se aguentavam? Como poderia um deles suportar outras seis versões de si mesmo todos os dias? Aquilo era impressionante e deveria ser estudo de caso. Depois, ao lavar o rosto com o sabonete com essência de almíscar, seus pensamentos não encontravam resposta para a questão matematicamente filosófica: “será que, se juntando os sete teríamos um ser humano minimamente decente?” Não tinha como saber, mas ele apostaria todo seu pouquíssimo dinheiro da mixaria que ganhava como salário de que a resposta seria “não”.

Saiu do devaneio ao escutar a porta da van bater e ele já se ver dentro dela, sentadinho em frente ao volante, pronto para cumprir mais um dia de ir e vir… Ir e vir… Buscaria os pequenos para levá-los para casa. Os sete não o cumprimentaram, como de costume, ao entrar no carro, pois estavam muito ocupados cantando sua musiquinha infernal de todos os dias: “Eu vou eu vou / para casa agora eu vou / parara-tim-bum / parara-tim-bum / eu vou / eu vou / eu vou / eu vou / eu vou… “. A música valia mais que Xun.

Xun rolou os olhos para cima e suspirou. Seu incômodo interno de cada dia aumentava junto com o volume da cantoria. Sentiu seu rosto esquentar e gotas rolarem da têmpora esquerda até a orelha. A música foi abafada por seus batimentos cardíacos que pareciam ter marcado encontro com as gotas: todos se encontravam dentro de seu ouvido. As mãos tremiam e pareciam querer se entender com o ritmado parara-tim-bum, parara tim-bum. O pé direito do acelerador exigiu independência de Xun, pois não mais suportava tamanha farra. Nem raiva. Detinha o poder ali na van. Ele que ditava se iam, como iam e a velocidade que iriam para frente. Encheu-se de força e pisou forte. 80km/h. 93km/h. “Eu vou, eu vou…” 122km/h. 154km/h. Até o motor agora parecia gritar de raiva. “Eu vou, eu vou…”. Só parou quando encontrou alguém bem mais forte que ele. A cascata da imaginação de Xun era agora um rio real. O pé direito soltou-se alguns centímetros do acelerador por conta da gravidade. Xun cantou “pra casa agora eu vou” bem alto, abafando as outras sete estúpidas vozes pela primeira vez em sua vida. Deu seu último sorriso torto e verdadeiro quando o parabrisa estraçalhou-se em seu rosto com a força ímpar da água. Parara. Tim. Bum.



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  1. Od says:

    Ju, esse aqui foi viagem total!!! kkkk Mas foi divertido. 🙂

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