Turista

Após suas economias e coragem a permitirem, ela havia chegado no local de destino um pouco mais tarde que o desejado, mas isso não a desanimou ou deixou que o cansaço da viagem nublasse seus olhos para a paisagem de tirar o fôlego que vira de dentro do ônibuse a caminho do hotel. Seus olhos eram escuros como duas pedrinhas de ônix e a empolgação com o que estava por vir os deixavam tão brilhantes e cheios de vida que realmente mais pareciam uma pedra preciosa que uma parte do corpo humano. Cumprimentou o recepcionista do hotel com um sorriso tão acolhedor que o desajeito com sua mochila e os documentos foi simplesmente apagado. De certa maneira, era até bem charmoso.

O mesmo rapaz detrás do balcão reparou que a pequena câmera pendurada no pescoço denunciava que aquele era seu bem de maior valia. Poderia perder qualquer item de suas roupas escolhidas a dedo ou até mesmo dinheiro, mas as fotos deveriam estar em segurança o tempo todo. Elas seriam suas lembranças e memórias. Um dia, no futuro, ela poderia rever estas mesmas imagens e, pendendo a cabeça levemente pro lado direito com o cenho franzido, quase conseguiria sentir tudo de novo.

Com o mesmo modo de manusear sua mochila e bolsa, guardou o documento de identidade (segundo item mais valioso) com cuidado em lugar notavelmente de uso comum e seguro. Sorriu de novo para o jovem e, ao pegar a chave do quarto, parecia ter encontrado um potinho de tesouro.

Desta vez foi o recepcionista que sorriu, porém para si mesmo, satisfeito por ter um trabalho que proporciona alegria. Ele sabia que o custo despendido pelos visitantes era bem recompensado. Cada ambiente, móvel, cor, estilos de decoração dos quartos, menu da piscina e menu a la carte do restaurante, uniformes dos funcionários, almofadas, pedras, plantas, enfim, tudo havia sido planejado em extremo detalhe e nunca nada aparentava menos que simplesmente fabuloso. Não havia um quarto sequer que não tivesse vista pro mar. Ele gostava de trabalhar em local tão sofisticado e, ao mesmo tempo, aconchegante. Não sabia explicar muito bem, mas chegar ali era como chegar em casa. Em sua imaginação, tinha certeza que os hóspedes sentiam a mesma coisa ao entrarem em seus quartos. Suas casinhas por alguns dias.

E foi exatamente assim que ela se sentiu ao abrir a porta e acender a luz do abajur de lâmpada colorida amarela posicionado em esquina perfeita para que todo o quarto fosse apreciado sem ser ofuscado com luz forte e desnecessária. As luzes da piscina que vinham de baixo de sua varanda e que parecia ser uma pequena porção do mar que pendia abaixo e por toda a sua volta era algo que beirava a ignorância. Seu queixo ficou caído pelo mesmo número de minutos que ela ficou ali de pé apreciando a vastidão do que estava abaixo de si, sentindo-se um pouco uma rainha romana antiga olhando seus súditos da sacada. Por conta da brisa um tanto gelada que penetrou seus fios de cabelo e dedos do pé, optou sentar-se na confortável poltrona do lado de dentro do quarto, também estrategicamente posicionada para a vista. Colocou os calcanhares para cima no puff da mesma cor que a poltrona e o edredon e mexeus os dedos, sentindo os pés agradecerem o movimento.

Deu-se conta que nem havia checado o banheiro ainda. Tinha verdadeira adoração por banheiros luxuosos! E este não a decepcionou. Soltou um gritinho abafado acompanhado de pulinhos, enquanto se enrolava no macio roupão. Abaixou a tampa da privada e ficou checando cada tubinho de shampoo, condicionador, sabonete líquido, hidratante, cotonete, algodão, touca e outros itens dispensavelmente necessários. Cheirou todos, os tampou de volta e voltou para o quarto.

Resolveu pedir room service antes de se jogar no que ela considerou uma piscina no banheiro, aquilo não era uma simples banheira. O apetite até aumentou com a ideia de ter alguém batendo à sua porta com seu pedido escondido por prataria como se fosse um segredo entra o chef e ela. Escolheu o menu sentada no meio da cama com as pernas esticadas, como se para ocupar todo o espaço, ainda enrolada no roupão. As escolhas incluíam champagne, vinho branco (queria poder opinar depois sobre ambos e decidir qual seriamo favorito) uvas, uma seleção de queijos (não entendia o porquê de tantos, afinal, não era tudo queijo?), prato quente que ela nem sabia pronunciar e, por este exato motivo, o escolheu. Tornava mais charmoso. Desligou o telefone. Não havia pedido sobremesa! Erro. Não tão grave, pois não era do tipo doceira, mas iria permitir-se provar a sugestão do atendente, pedindo a ele que trouxera uma sobremesa supresa. A cada mini decisão, um sorrisinho que pareciam dois parênteses estampados em sue rosto.

Degustou cada item da bandeja de prata, seguindo nenhuma ordem de etiqueta: ora uvas, ora prato quente e até o tal doce inesperado entrou na dança gastronômica. Naturalmente, por não conseguir optar pelo melhor, bebeu as 2 garrafas. Tomou o cuidado de cada bebida ser servida em taça separada. Parecia fazer sentido, além de ser chic.

Após o banquete, resolveu relaxar no gran finale da noite: o banho de espuma que preparou para si. Por pura falta de experiência e excesso alcóolico, colocou os 3 potinhos de sais e depois praguejou pra si mesma o tanto de espuma vazada paro o chão do banheiro. Recusou-se a limpar, pois viver a rotina definitivamente não era o intuito de seu autopresente luxuoso. Secou-se com o mesmo roupão macio, realizando movimentos copiados de filmes que julgava serem extremamente sensuais. Não que houvesse alguém para ver, julgar, admirar… a noite era somente dela e os movimentos eram ensaiados somente pro único companheiro da noite: o espelho.

Já de madrugada e após assistir vários programas desconhecidos na rede fechada de TV, sentiu certo cansaço e a plena satisfação de ter aproveitado bem a noite. Decidiu fechar os olhos e, ela jamais saberia, mas o espelho de frente à cama denunciou que ela dormiu com o sorriso no rosto.

Foi despertada por um telefone que descobrira ter função de alarme e, ao dizer “alô”, decepcionou-se um pouco em ouvir uma máquina alertando-a de seu pedido de ser acordada. Desejou “bom dia” para a voz eletrônica e espreguiçou-se na cama rolando de um lado pro outro, ocupando cada centímetro daqueles lençois que reluziam de tão brancos e daquela cama que, por tamanho, poderia bem ser um carro.

O check-out era obrigatório para todos às 12h. Ela chegou pontualmente na recepção, não por qualquer enrolação de sua parte, pois tudo já estava pronto desde a noite anterior. Ao dormir, deixara tudo praticamente em seus devidos lugares, deixando somente itens de toilete e a roupa do dia seguinte do lado de fora da bagagem. Até de calcinha resolvera dormir para ter algo a menos para guardar, economizando seus preciosos minutos.

O caminho de volta ao salão onde trabalhava como manicure foi feito a pé, ainda com a máquina fotográfica emprestada de um amigo pendurada no pescoço, bem como deduzira o recepcionista noturno: a câmera era tudo que ela jamais se perdoaria se perdesse, pois perderia todas suas lembranças. Lembranças estas que as remeteriam de volta às sensações obtidas naquela noite que julgava ser a única em sua vida. Registrara na maquininha todos os ocorridos na noite anterior e até aprendera a gravar pequenos vídeos para melhor se recordar de tudo num futuro distante. Para repetir algo semelhante, teria que economizar por mais outros 20 anos. Afastou este pensamento, apertou a máquina na mão esquerda como se fosse um amuleto de sorte e, mais uma vez, sorriu em parênteses.

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  1. Ri Bendo says:

    Ju, feliz estréia do novo endereço… teus textos são preciosos!!!

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