Eu já morri… E você?

Então… É isso. Eu já morri. É sobre isso que vim falar. Se João Cabral de Melo Neto tivesse me conhecido na época, seu mais ilustre livro teria se chamado “Morte e Vida, Juliana”.

Quando tinha 4 anos (ou 3, não me lembro) sofri um ataque de pneumonia que médico nenhum de Brasília conseguia explicar. Sou relativamente jovem, portanto a doença, já naquela época, não era nenhum monstro de 7 cabeças. Obviamente internação era necessária, assim como antibióticos intravenosos, monitoramento, soro e raios-x constantes. Mas o raio da tosse não só não ia embora, como piorava. E trazia com ela a febre cada vez mais feroz que, se eu me lembrasse, descreveria como uma sensação de vulcão em torno e atrás dos olhos. Eu tinha certeza que, se me lembrasse, morria de frio, apesar de sentir cada pedacinho do meu corpo pegar fogo. Também se me lembrasse, já me imaginaria ficando ruiva trocando a marchinha da Gal Costa para “o meucabelo amanheceu pegando fogo, fogo, fogo”. Mas como não me lembro, opto por não relatar a experiência em si, mas sim o que ela me causou nos anos futuros à ela…

Apesar de não me lembrar, foi certamente uma das experiências mais fortes da minha vida. Afinal de contas, quantos sortudos vão e voltam assim do lado de lá? Ir e ficar do lado de cima (céu) já é sorte. Mas ir e voltar? Aí já é bônus. Ou castigo. De qualquer forma, é diferente da maioria e, pelo que tenho vivido, no meu caso foi mesmo bônus, castigo nenhum. Ótima família, sobrinhas lindas, amigos que carrego no meu bolso todos os dias, experiências fantásticas, comidas deliciosas, lugares únicos, enfim, tudo que formou e me transformou na Juliana de hoje. Juliana esta que lhes escreve hoje com um sorriso no rosto. Sorrio sempre, como diz a música dos Pretenders “I´ve got a smile for everyone I meet…”. Sim, sou assim. Por quê? Porque sim. Porque de um jeito ou de outro o que me move é uma fé em algo que não sei descrever, mas que sempre sei que “tudo, tudo, tudo vai dar pé”! Uma fé cega que faz com que eu deixe a vida me levar (aliás, fé que enxerga já não é tão fé mais, mas sim São Tomé). Deve ter sido esta fé que me trouxe de volta, pois médico nenhum sabia mais o que fazer depois da minha parada cardíaca por vários minutos… Não só a minha fé, pois minha mãe chamou uma amiga de muita, mas muita fé mesmo, infinitamente maior que a minha e foi ela que me afastou de todos os males. Depois da experiência que a ciência não explica, eu voltei. Sorri (olha aí! falei que sempre sorrio) para minha mãe e médica e declarei que queria gelatina.

Deve ter sido “pro bem de todos e felicidade geral da nação”, pois voltei!  Voltei e quero fazer jus à segunda chance. Para muitos que me conhecem, dizem que já faço. Para outros, explica-se o porquê de eu parecer “maluquinha, moleca”. Para outros, não me importo com o que pensam.

“Vade retro!!” (vulgo “afasta-te” em latim). Se eu me lembrasse, confirmaria que esta deve ter sido a frase usada para a coisa/a doença me deixar. Mas como não me lembro, optei mesmo por esquecer o conselho de “afastar” e foquei somente no “permaneça”. E por “permanecer”, quero dizer, que escolhi a vida. Ficar nela. Estar nela, com ela, dentro dela. E vim para ficar até que ela se canse de mim, mas aí será já porque eu também já a vivi o suficiente. E, se for/tiver sido o suficiente, aí sim me afastarei. Mas feliz, bem feliz, à la Ney Matogrosso: “Sim, sou muito louco, não vou me curar / Já não sou o único que encontrou a paz / Mais louco é quem me diz / E não é feliz / Eu sou feliz”.

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3 Comments Add yours

  1. Od says:

    Ju, vc não se contenta em ser feliz, mas faz questão de contagiar os outros com seu sorriso constante e irradiar essa sua energia e alegria de viver!!!
    E como dizia o Gonzaguinha: “viver e não ter a vergonha de ser feliz…”
    Seja sempre assim!!!!
    Bjs

  2. Bendo says:

    Juju, essa foi muito intensa… li há mais de 1 mês, penso em comentar, mas (felizmente) o meu sentir extrapola o meu expressar. Eu tb já morri e voltei, talvez seja porisso, sei lá. Vou tentar:

    Voce escreve bem demais, o que não é novidade… mas se expõe!!
    Isso é pra pouquíssimos, raridades como Picasso, que assim fazia.

    Muuuuuuuito obrigado!!

  3. Bendo says:

    Ah, e esta Força, esta Fé, esta Luz, está disponível em todo ser humano, inesgotável, a todo momento, farte-se!!

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