Maldita água benta

Ela sabia que era feio xingar. Ainda mais se fosse em público, mas como dominava bem esta parte da literatura, fez jus ao que sabia naquela tarde chuvosa em São Paulo. Estava atrasada para um compromisso e aquele monte de gente passando correndo como se fosse se diluir pela água que caia raivosamente do céu a irritava ainda mais. Falava para si mesma, mas em tom alto o suficiente para que os mais próximos pudessem escutar: “vocês não são de açúcar, não! Não vão derreter!” ou “a chuva não é corrosiva, pegue leva aí com a correria, ô! Falta de educação, porra!”. Fora os passantes, tinham aqueles que se acobertavam embaixo das marquises como se ali fosse abrigo em época de fim de mundo. Estes ouviam metade das frases, pois ela passava falando, mas o que captavam já era o suficiente para gerar encaradas ou olhadelas desconfiadas e risadas entre eles mesmos.

A calçada da Paulista havia se tornado uma verdadeira pista de snowboard e o sapato de salto 10cm não a ajudou em nada na situação. Escorregava a cada 3 ou 4 passos e os protegidos pela marquise abafavam risadinhas estúpidas enquanto a moça, a única aventureira ensopada do 1º fio de cabelo até a sola do sapato, se rearrumava, endireitando a saia curta que cismava em deslizar perna acima por conta da água. “Que inferno! Chove e até a saia desliza! Esta porra deste sapato de merda que não segura nada nesta calçada mal feita que o imbecil do prefeito gastou mó grana e tá assim e ainda por cima o vento puto que resolveu dar o ar da graça tá gelado. Puta que pariu, viu!”. A maquiagem, a esta altura, a fazia parecer um personagem saído diretamente de uma estória do Stephen King. O cabelo encaracolado também havia perdido todo o glamour da chapinha feita mais cedo e agora parecia uma cópia exata da Elba Ramalho nos anos 80. Ou isso o “leão da montanha” do desenho animado.

Fez sinal para alguns táxis, mas apesar da aparência bem chamativa, sentia-se invisível. Ninguém parava, nem mesmo o desgraçado, cornudo, filho duma puta que estava com o carro livre. “Tinha que chover logo hoje, caralho? Tempo não espera, não! O compromisso tá lá me esperando e eu aqui quase me derretendo com esta água que não para mais”. Ali já começou a concordar com as pessoas a quem havia praguejado antes, quando ainda não se encontrava com aparência tão bizarra. Já não se sentia menos açúcar que os outros. Resolveu se espremer junto a mais uns 53 desconhecidos debaixo de uma marquise com a singela desculpa que era por conta do celular. Iria ligar para o tal compromisso e avisar do atraso e não poderia molhar o aparelho. Vários abriram espaço para ela, pois parecia contaminada de tanta água ácida que não queriam nem encostar nela. Sentiu-se como doença contagiosa e voltou para a postura inicial: “é só água, tá gente, só água, porra! Água, água!! Não fode… Seca rápido isso aqui! Afff… bando de exagerado. Gente fresca do caralho!”. Pegou o celular da bolsa enorme, cheia de penduricalhos dourados e com as unhas vermelhas discou o número. Sem resposta. Deixou recado na caixa postal no tom mais “rainha Elisabeth” que pôde e se desculpou. Afirmou estar a caminho, caso ainda desse tempo e solicitou retorno. Ficou ali  mais uns 10 minutos. Nada. A água já havia diminuído bastante e alguns já se aventuravam a seguir em rápida caminhada aos seus rumos. Ela permanecia na espera do toque do celular. Mudo. À esta altura, já havia se sentado com os joelhos grudados um no outro pro lado esquerdo e os pés, também grudados, jogados pro lado oposto. Olhou pras nuvens ainda ranzinzas, mas menos coléricas que há pouco e levantou uma sobrancelha com os olhos um pouco fechados, como se as questionando do porquê de não terem dado o prazer de sua visita umas 2h depois. As nuvens, em conchavo com o celular, permaneceram quietas.

Resolveu se levantar, apoiando-se para não escorregar na pilastra com a mão esquerda, afinal ainda estava bem molhada. Surpreendeu-se com um par de mãos oferecendo ajuda. Um rapaz alto que sorriu e disse: “chuva escrota, né? Só serve pra parar de vez esta porra de cidade que já é caótica e atrapalhar nossos planos”. Ela mal podia acreditar no que acabara de escutar. Sentiu um dos raios antes disparados do céu dentro do seu estômago e sorriu de volta, só pensando “puta que pariu! Um destes me aparece justo hoje e eu com este cabelo bizarro?!? De foder mesmo.”. O sujeito ofereceu entrarem num café para ela se secar um pouco, afinal ela parecia ter saído de uma balada sem fim de 3 dias seguidos. Aí ela entrou em euforia! Xinga e é honesto! Ela reparou no estranho fato do rapaz ser uma daquelas pessoas que carregam guarda-chuva. E vermelho ainda por cima! Mais estranhamente foi o fato de ela ter se esquecido deste detalhe num piscar de olhos. Deu a mão para apoiar-se e perguntou se o café da esquina estava bom para se sentarem. Quando deu uma olhadela para cima de novo, abria-se um raio de sol ainda com algumas gotas teimosas que cismavam em cair. Piscou com sorriso malicioso e soltou um “filho da puta…” em agradecimento ao solzinho tímido. Mas houve também um sorriso estampado do novo rapaz ao seu lado que proferiu: “Uau! Obrigado! Adoro elogios.”

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  1. Você me fez lembrar de um vídeo clipe que eu gosto muito. Enjoy 🙂

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