Ser ou não ser (humana)?

Não havia mais espaço dentro dela para nenhuma outra sensação. Cada cantinho de vísceras, cada ponta de osso, cada curva de pele macia, tudo absolutamente tudo estava tomado por uma fúria que ela, num canto obscuro de sua mente sabia não ser sua (talvez o único espaço ainda não invadido pela força). No entanto, não conseguia mudar a sensação ou alterar seu tão flutuante senso de humor. Desta vez ele estava fixo. Aliás, estava ausente. O senso de humor deve ter sido o primeiro a se retirar quando deparado com os olhos de fogo. As últimas sensações a resistirem à tal força foram a ironia e o sarcasmo, respectivamente. Alternavam entre si para poderem respirar um pouco e ganharem mais força, mas houve certo momento que até eles perceberam que já era hora de ir. A fúria por si só já é um sentimento avassalador. Quando ela vem furiosa, então…

A moça percebeu que nem ela sabia do quão capaz era sua força interna. Gostaria de tê-la sentido por uma explosão de gargalhadas e alegrias e não por murros na mesa ou gritos que a deixavam rouca, mas não sem voz. Sentia que se via do outro lado da sala, como se aquele ser furioso fosse uma atriz em pleno papel para o Oscar e ela, a moça, mera espectadora de si. Não podia compreender de onde viera tamanho sentimento. Ele era bem maior que ela e a fazia parecer crescer na mesma proporção: 20cm a cada grito dado. Sentia-se até meio desconectada de si. Como se os membros não a vestissem direito. Estavam apertados e os movimentos ficavam restritos, mas não sem agilidade. Movia-se rápido e de maneira quase que sensorial, afinal seus olhos pareciam captar muito pouco do seu entorno. Estava cega de raiva. Então era sério isso que diziam por aí de ficar “cega de raiva”? Ela, por fim, entendeu que sim. Desejava que não, mas seu desejo era mínimo se comparado ao Hulk que carregava agora dentro dela. Chorou, sentou, levantou, andou, bateu, voltou a sentar, gritou, urrou, calou. Quando calava, só escutava sua respiração tão forte que quase parecia formar palavras. Respiração ritmada, acelerada e alta. A cabeça explodia, mas parecia estar em sincronia com o resto. Não a afetava. Nada a afetava. Parecia, momentaneamente, invencível, pois enfrentaria qualquer um, repito, qual-quer um que aparecesse em sua frente naquele momento. Agradeceu, mas também xingou por dentre os dentes cerrados pelo fato de estar sozinha. Agradeceu por não saber como reagiria com o outro. Xingou pelo exato mesmo motivo.

Em meio ao devaneio, sentiu ainda mais raiva quando deparou-se com o seguinte pensamento: “O quê é isso, peloamordedeus? Que ataque é este? Que coisa mais humana é esta?! Humano dá piti. Humano sofre! Eca. Não quero isso para mim, não.” Respirou forçadamente de maneira mais calma enquanto soltava suspiros misturados a uivinhos. E respirava olhando, catatônica, para o vão entre a porta e o chão. Havia um feixe de luz vindo do corredor do lado de fora. Dentro estava escuro, mas não fazia diferença, pois estava ainda se readaptando a enxergar, sua cegueira raivosa estava ainda passando. Fixou o olhar na luz e sentiu que realmente a luz sempre vem! Era isso! Já sabia como agir. Encontrou na luz a solução para seu controle: não ser humana. Optaria por ser extremamente mental, fria e sem sentimentos. Sentir doía. Sentir sofria. O controle vinha da cabeça. Não é isso que sempre dizem? Que é a cabeça quem controla tudo? Então pronto! Mais um motivo para segurar-se na decisão tomada: até a ciência estava do lado dela com tudo comprovado sobre o quão capaz e forte é o cérebro. Sentiu-se forte, levantou e sorriu. Friamente esboçou um sorriso e ensaiou curtos e lentos passos, como se flutuasse, em direção ao chuveiro. Optou pela água fria para combinar com seu novo modelo de vida. E acendeu a luz. Sorriu para ela com olhar de cumplicidade maliciosa, agradecendo por ter tido uma revelação ali bem no meio de sua sala de estar através da luz. Até pensou em, talvez, quem sabe, após esta revelação, virar religiosa.

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