Dona Piroca

Chovia cântaros. Mas chovia mesmo. Eu olhava pela janela do ônibus do terror que eu comprei passagens mais baratas pensando que daria tudo certo e tinha vontade de chorar. O maldito não tinha ar condicionado e era dia 30/12/2009. Imaginem o calor em pleno verão e eu rumo a Minas Gerais, Estado quase nada quente. Todos os assentos eram ocupados por, no mínimo, 2 passageiros. Sim, havia lotação maior que a permitida. O banheiro é melhor nem descrever porque desejo continuar o relato e, se me lembrar muito dele, vomito em vez de escrever. Portanto, sim, queria chorar. Chorar a mesma quantidade de água que os céus choravam. Estava já com pressão alta de tanto segurar xixi e a água caia livremente do lado de fora. Pensei que isso poderia tornar-se uma nova tática de tortura. Me contorcia por não achar mais posição pois tinha certeza absoluta que, a qualquer movimento, a bexiga explodiria e me mijaria inteira. Ou seja, só os olhos se movimentavam e adivinhem? Tudo que eles viam eram gotas e mais gotas esbanjando liberdade bem ali na minha cara. Gotas dos infernos! De repente, escutei um som que levemente me acalmou a alma. Era o freio do ônibus. Estávamos parando! Havíamos chegado ao destino! Eu iria ao banheiro!! Felicidade. Leveza. Pensamento otimista.

Quando eu e meus 3 amigos saímos da estufa sobre quatro rodas, nos olhamos e sorrimos. Esperamos mais tempo do que eu gostaria para recolher as mochilas do bagageiro do “ônibus”, mas tudo em que pensava era no banheirinho da pousada a, supostamente, poucos metros dali. Houve certa comoção entre os 4 para decidir se deveríamos pegar uma porra de um táxi barato pra cacete pra chegar logo na porra da pousada, ainda mais debaixo de um dilúvio como aquele. Chegamos num consenso após certo surto da minha parte que foi, certamente, originado na minha bexiga. O órgão criou voz e opinião naquele momento. Em silêncio, entramos no táxi e demos o endereço. Imaginei ter visto um misto de “sério mesmo?” com “se fuderam” na cara do motorista, mas convenci-me já estar alucinando de tanto aperto líquido.

“É aqui.”, anunciou o taxista-cara-de-se-fuderam com voz quase inaudível e sem a menor dica de insinuação no tom. Poderia ser um tom de quem anuncia uma morte ou de quem fala em outro idioma com você. Paguei o puto porque queria mijar loucamente e porque já odiava o cara. Peguei minha mochila e quase esmurrei a porta da pousada. Ao que me pareceram inúmeros minutos depois, a porta lentamente se abre e tento ajustar minha visão à luz toda que vinha lá de dentro, bem oposta ao lado que era uma escuridão sem fim. A senhora baixa e gordinha vestia ainda seu avental, apesar de ser quase uma da manhã. Nos recebeu com sorriso afável e nos conduziu pela sua casa adentro para chegarmos em nossos chalés. Mal podia esperar. O xixi me xingava por dentro, dando murros e pontapés na pobre da bexiga. Pedi o mais gentilmente que consegui para usar o banheiro da própria senhorinha. Ela me abriu uma outra portinha de madeira totalmente comida na parte de debaixo e falou no mesmo tom do taxista “é aqui”. Entrei e me deparei com um mundo cor de rosa. O banheiro era inteiro rosa tutti-frutti. Meus olhos se adaptaram ao choque e vi que nem azulejos o banheiro tinha. Era pintado de rosa. Não importa… meu mundo ficou mesmo mais pink à medida que ia esvaziando meu sistema. Saí mais leve e com mais ansiedade para ir ao chalé, tomar um banho e dormir!

Para chegar no chalé, outra portinha nos fundos da casa é aberta e somos liderados pela senhorinha. Descemos praticamente uma ribanceira abaixo das gotas que agora pareciam realmente canivetes de tão pontiagudas e agressivas. Ribanceira não. Uma pirambeira do caralho. De longe senti o cheiro do mofo que nos esperava. O que não esperava era a quantidade de insetos e outros bichos que iriam pernoitar conosco sem pagar um puto pela diária. Eram penetras de acomodação. Não acreditei. Lembrei que, pela internet, foi anunciado que o chalé tinha dois quartos, mas na verdade, o banheiro original foi transformado num quarto e a porra da senhorinha “ implantou” um banheiro num canto do quarto principal…. um horror! E mais! O banheirico também era rosa!! Certamente ficou assim com a sobra da tinta usada para o banheiro da casa dela. Minha raiva agora atingia o mesmo nível de intensidade da chuva do lado de fora. Quando ela se virou em direção ao outro chalé para levar meus outros 2 amigos, mantive os olhos fixos na amiga de quarto. A pobre já chorava. Sentei-me ao lado dela e declarei que iríamos dormir de roupa e apoiadas uma na outra, sentadas, é óbvio. Ah, e de tênis, é óbvio também. Ela assentiu com a cabeça e esta foi a noite não dormida que tivemos. Choramos juntas. Eu de cansaço e ela, de nojo. Senti que ambas faziam um esforço fora do comum para ficarem ali, praticamente um exorcismo-reverso do espírito: colocar a alma de volta pra dentro porque até ela já tinha nos abandonado.

Levantamos às 05:30h e batemos na porta dos amigos que, como bons homens (mesmo sendo gays), dormiam placidamente. Não entendiam o motivo de tanto fuzuê, mas se compadeceram, foram companheiros de verdade e disseram “acalmem-se… vamos tomar um belo breakfast e acharemos outro lugar para passar a noite.” Eu confesso minha total falta de esperança dado que era noite de ano novo, então já fiz um plano B mentalmente de catar a mochila, pegar um ônibus “deluxe” e voltar para SP. Foda-se. A esta altura do campeonato, passar meia-noite no busão era melhor que na pousada da Dona Piroca.

Ah, perdão. Esqueci de comentar esta parte… Antes de saírmos pro tal breakfast, armamos um plano sobre como abordar a velhinha escrota e dizer que de jeito NENHUM pagaríamos a outra metade da reserva, dado que aquele local nada mais era que uma espelunca desgraçada. O único problema é que uma das bibas não enfrentaria a senhorinha de jeito nenhum e já foi lá pra fora com as mochilas nos esperarem. Ouvindo isso, a minha colega de fez-se solidária à biba e foi junto. Pareciam dois fugitivos de assalto a banco esperando do lado de fora olhando para todos os lados, com nervosismo explícito. Olhei pra biba mais macha e lá fomos nós para dentro da casa da senhorinha. Preparamos todo um discurso para falar com ela e meu receio era que minha biba querida a chamasse de Dona Piroca. A cada ensaio sobre como falaríamos com ela que não pagaríamos o restante, ele soltava: “Dona Piroca, veja bem… o quarto não pode ser bem chamado de quarto. O banheiro não é um banheiro. Assim sendo, Dona Piroca, não achamos correto que paguemos já que estamos optando ir embora.” Ele falou isso sem chamá-la pelo apelido. Estávamos tensos por não saber como ela reagiria e, dependendo, teríamos mesmo que sair fugidos da espelunca. Quando falamos, ela respirou aliviada e falou simplesmente “está bem…”. Bingo. Foram 5 segundos de respirações suspensas e olhos apertados, desconfiados: ela de nós e nós dela. Depois entendemos: ela estava tensa que pediríamos reembolso da noite já paga e nós tensos por ela exigir o resto do pagamento. Os 3 soltaram respirações aliviadas e nos cumprimentamos rapidamente antes que uma das partes mudasse de ideia.

Ela não sabe até hoje que é chamada pelo quarteto de Dona Piroca, mas que a velhinha merece o apelido, ah, isso ela merece. Afinal, ela nos fodeu bonito.

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2 Comments Add yours

  1. Nossa, fiquei com pena de voismicê…. que perrengue!!! Aliás, vou ao banheiro, estou feliz por ter um aqui do lado. 🙂

    1. Ju Rocha says:

      Hehehe, quem disse que foi comigo? E mais… quem disse que é uma estória real? 🙂

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