Pausa (post em dueto)

(post escrito em parceria: Ronnie Biermann avec moi)

E lá estava ela, adornando a cadeira numa das mesas que vestiam a calma calçada do café no outro lado da rua, naquela tarde em que o sol já se punha, porém ainda a ponto de manter a claridade suficiente para justificar os elegantes óculos escuros. Estilo inquestionavelmente europeu e sofisticado, que harmonizado pela perfeita combinação de sua roupa, talhavam um exemplo explícito de mulher moderna, segura, independente.

A pequena xícara de café espresso repousava em um pires sobre a mesa, fazendo companhia a um guardanapo de papel já purificado com a marca de certo batom rouge e a um telefone celular. Seria possível ver o vapor do café quente do outro lado da rua? Provavelmente não.

Nenhuma outra mesa posta à calçada estava ocupada naquela ocupada tarde de outono.

Ele não sabia mesmo porque havia parado ali do outro lado da rua, sequer como tinha ali chegado e há quanto tempo a estava observando quando de repente seu telefone celular tocou. Era alguém da empresa e nem sabia quem, mesmo após ter respondido boa tarde e perguntado como estavam as coisas por lá. Piloto automático. A voz ao telefone explicava inoportunamente que precisariam mandar a lista atualizada para o cliente, mas que não haviam recebido informação crucial, e que o tempo para isso era curto demais, e que a pessoa que poderia ter facilitado isso não tinha vindo ao trabalho hoje, e que ninguém mais sabia a que recurso apelar e se ele ainda estava na linha, alô, a importância da ligação, a urgência da definição daquele momento único e… Enquanto o dilúvio de ininteligíveis palavras que ofegantes e agonizadas inundavam medidas de desespero do lânguido, mas profissional interlocutor, seu fixo olhar deleitava sua libido no itinerário da xícara de café espresso: do pires à boca. A pausa nos lábios foi maior do que a geralmente necessária para ingerir a quantidade de café que a inclinação da xícara demonstrava precisar para que o líquido passasse de um ambiente ao outro espaço naquele intervalo de tempo. E de volta ao pires – e isso de alguma forma começava a influenciar o ritmo da sua respiração.

Nos primeiros segundos imaginou que a alteração na respiração dava-se por conta da ligação tão inesperada quanto indesejada, mas não… era pelo movimento que ele não controlava: o seu olhar fixo ao conjunto de atributos humanos que compunham a pessoa mais próxima de uma diva que já avistara. Tossiu forçadamente e balbuciou qualquer desculpa para a voz que não se cansava do outro lado da linha. Desligou o telefone. Nada mais podia fazer a não ser desligar. Desligar mesmo: apertou o botão vermelho do aparelho com a força precisa para garantir que seu objetivo seria atingido. Percebeu a transferência de vontades: apertar o botão sugeria sua vontade de pressionar os seus lábios contra os vermelhos do outro lado da rua com a mesma determinação. Pausou neste pensamento por alguns segundos, até mesmo esquecendo-se da imagem real à sua frente. Voltou a si quando uma moto passou zumbindo e o tirou do transe. Entrou em choque. Congelou-se por dentro, sentindo seus ossos como se fossem estalactites. Para onde havia ido a decoração do café? Como ele podia ter se distraído tanto na fantasia a ponto de esquecer a realidade? Confundiu-se inteiro, afinal a bela nada tinha de real para ele. Baixou a cabeça lentamente, e com os olhos fechados, sacudiu a cabeça para afastar o pensamento difuso e também para voltar a acreditar em sua visão: ela lá estava de volta.

O modo como se sentou de volta à mesa insinuava o prefácio de uma dança. Ela e a cadeira formavam uma requintada dupla de tango e ele teve então absoluta certeza que Astor Piazzolla entoava em alto falantes invisíveis pela cidade. O pé prendendo-se ao pé da cadeira num giro em cima daquele salto fino e resolvido, a mão delicada em volta do ombro da cadeira e a virada final com direito a cabeça jogada para trás desbancou qualquer tango jamais composto. Parecia ausente aos seus movimentos, mas também parecia brincar, como se soubesse que alguém a observava. Gostou do joguete corpo/música e mergulhou em notas inaudíveis.

Agora, ao tocar novamente na xícara, não foi para beber. Parecia acariciar uma taça de cristal, pois contornava sua borda com o indicador comprido, no entanto delicado, claramente determinando um novo ritmo. Agora seria uma valsa. Rodopiava o dedo e a xícara deixava-se levar pelo comprido e delicado quirodáctilo. Perfeita parceira de dança. A xícara sucumbira ao talento e ao poder do indicador; ele realmente indicava a coreografia executada de maneira rítmica e envolvente. Se havia ainda café lá dentro, era certo que o mesmo estava entorpecido: até mais do que o observador na calçada oposta. Lentamente inseriu o dedo médio à dança, trocando sutilmente a valsa por um balé: os dedos contorcidos e cruzados um em cima do outro remetiam imediatamente aos pés de uma bailarina. Continuou sua dança improvisada, ao mesmo tempo cadenciada, retumbando nele uma expressão de sentimentos por ela intensificados. O Lago dos Cisnes havia tomado o lugar do Libertango. Era aquilo um leve sorriso ou os olhos dele, já ofuscados pelo sol, lhe pregavam uma peça? Não importava. Os olhos agora faziam o papel do ouvido e era através destes que ele escutava todo o repertório da belle de jour. Sentia-se parte da dupla, como se fossem um só corpo, um movimento com razão.

Rodopiava pelo salão quando uma guitarra errada, forte, fora de contexto e inesperada arranhou seus olhos e seu âmago. Sua maestra particular fora subitamente arrebatada da mesa por uma alta figura do mesmo porte e estilo. A maneira deliberada, resolvida e resoluta como ele a envolvera pela fina cintura e a aproximava de si remetia somente a Hells Bells. Sentiu-se virar tormenta, raios explodiam dentro de si. Um tornado havia tomado conta do seu estômago e de forma intensa e potencialmente perigosa entrou em contato com suas entranhas. De repente, nada. Somente silêncio. Ou melhor, os sons normais do dia a dia retomavam os seus devidos lugares. Motos, vozes, carros, buzinas, até mesmo músicas, mas vindas dos carros passantes e agora de reais autofalantes. A náusea causada pelo furacão o forçou sair da ilusão de que a vida é desejo e de que a dança, visível ou não, expressa nosso desconhecido. Buscou obstinadamente por uma outra música dentro de si para ao menos ter ter a chance de se presentear – ou seria justificar? – com um petit gran finale. Não achou nenhuma.

Em vez disso, lembrou-se do porque de ter parado ali naquele local. Iria receber um telefonema importante e o sinal da rede de telefonia móvel onde antes se encontrava era péssimo. Decidira caminhar um pouco a fim de garantir cobertura suficiente para escutar, conversar, trocar e, eventualmente, fechar o negócio que nem era seu, mas que por uma sorte divina, haviam pedido para que ele tomasse a rédea, pois a pessoa responsável não estava na empresa naquele dia. Havia desligado a voz incansável e isso o tornou cansado. O estado de hipnose e entorpecimento havia passado e sua respiração estava de volta acelerada. Infelizmente, não pelo bom motivo anterior. Agora era realidade. Agora era nervoso. A música da vez? Murder on the dance floor.

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One Comment Add yours

  1. Odair says:

    Ju, escrever não é para qualquer um… Você está cada dia melhor!!
    Parabéns!!!

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