Pintura íntima

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Preso às idiotices de minha época, fui submetido ao hábito da tentativa de imortalizarem minha alma dentro de uma moldura tosca e torta. Confesso até ter ficado surpreso com o resultado, pois a pintura fez jus à minha realidade física. Sou quase exatamente assim como vocês me veem nos dias de hoje. Porém, a expressão de preocupação, como alguns me percebem, é errônea. Ela não passa de uma sensação horrorosa de ficar sentado ali horas a fio na mesma posição dia após dia. Entediante, doloroso e sem o menor motivo (para mim, pelo menos). Agora entendem o porquê de eu ter dito que estas tradições eram estúpidas. As câimbras nos dedos de ambas as mãos e a dor no punho direito são alvos de palavras saídas da minha boca fina, fisicamente falando, mas bem grossa quando se tratando de vocábulos. Não vale mencioná-las aqui, pois o foco é outro.

Imagino que estejam se perguntando que diabos faço com este crânio pousado delicadamente em minha mão esquerda. Pois eis aí justamente o motivo de ter aceitado passar por dores, irritações, uso e reuso da mesma roupa que até já cheirava mal, especialmente aquela gola patética e quente, entre outras coisas. E o pintor, por mais talentoso que fosse, foi um tanto imbecil ao começar a pintura de baixo para cima. Quando chegou a vez de desenhar meu rosto, claro, não poderia eu ter outra expressão senão esta aí. Uma pena, pois eu não era tão carrancudo assim. Eu sorria mais que o ali gravado para sempre. Sorria pouco quando criança, é verdade, mas na juventude passei a sorrir muito mais.

Após tê-la encontrado, aprendi a sorrir não só com o rosto, mas também com o corpo, com a alma. Descobri que era capaz de tal proeza. Bastava avistá-la caminhando, a pequenos e lentos passos, pelos jardins com sua acompanhante diária carregando sua costumeira sombrinha a quem girava como quem toca num passarinho ferido: com cuidado excessivo, mas o suficiente para saber que alguém ali o dedicava atenção e presença. Ela dava vida a tal sombrinha. E eu desejava, por vezes, ser o bendito objeto para sentir seu toque macio. Imaginava que sua pele era, sem sombra de dúvida, a mais aveludada de todas as moças do condado.

Para encurtar a saga, lhes digo que passei anos tentando fazê-la notar-me. Não era possível que a sombrinha conseguira mais atenção que um ser humano! Esforcei-me de todos os modos, mas ela parecia não me ver. Aquilo era impressionante demais para minha compreensão e então os sorrisos passaram a, gradualmente, se contorcerem em indignação. Revolta. De volta à paixão. Insônia. Tremor. Aflição. Calma ao revê-la. Ódio ao ser despercebido. Desejo. Mudança de sentimento. Outro desejo. Desespero. Amor. Ato.

Não sei se por desespero ou por paixão que agi como agi. Movido por uma cegueira momentânea, a capturei para mim. Não me importei com os berros, com os olhos lacrimejados e em puro terror, com as súplicas e nem com os murros e pontapés que levei. Todo esse exagero de reações me foi até positivo, pois finalmente havia captado sua atenção, finalmente ela me vira. Ah, como me senti vivo de novo! Uma ironia… quando longe de mim, ela era mais viva que nunca e eu, praticamente um morto. Quando ali, ao meu lado, ela se foi e eu vivi.

E volto aqui ao início da minha pequena história para explicar o único real prazer de ter me submetido àquelas horas ali gastas. Era pelo prazer visceral, real de sentir minha amada, minha eterna, mas não imortal amada finalmente em minhas mãos, local este onde ela nunca estivera estado até então. Agora era ali, onde escolhi, que ficaria eternamente.

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