Corrida contra um tempo

Acordou de sopetão após a longa noite de sono entorpecedor. Seus olhos abriram como se alguém tivesse a espetado e a mente já estava clara e alerta no ato. Esta sensação viva e desperta, apesar de ainda confusa pelo sono intenso, nada tinha a ver com a noite que acabara de acabar. Coçou-se um pouco, sentiu a boca seca, olhou em volta e demorou alguns minutos para entender que não era cedo. Ainda estava escuro lá fora. Então havia dormido pouco? Não podia ser. Estava certa de que horas, talvez dias haviam se passado de tão profundo que havia sido seu sono. Seus pensamentos estavam ágeis e, quase que no mesmo instante que pensou isso, se levantou rapidamente com a certeza de aquela escuridão representava outra noite qualquer, não a mesma de quando havia caído ali e dormido. Ou desmaiado. Tentou reviver alguns detalhes da noite (ou era de tarde?) quando foi adormecendo, caindo num sono pesado que a puxava para baixo, que a tirava a força. Coçou-se novamente e, entre lembranças difusas, vomitou. Era um estranho vômito seco e ardido. Outra memória que buscou: quando havia comido pela última vez? O quê estava saindo dela? Seu corpo sabia. Seu cérebro ainda não. O corpo pedia entre náuseas e coceiras que ela saísse dali. Que corresse, apesar da fraqueza. Que se apressasse, apesar dos fortes bocejos e espirros intermitentes. Pedia que se encontrasse, apesar da luz externa ter atrevessado seus olhos como duas agulhas pontiagudas e compridas. Levou o braço ao rosto e tapou os olhos por pouco tempo, mas tempo longo o suficiente para o corpo a colocar em movimento de novo. Tropeçando por não enxergar bem, seus pés caminhavam numa mistura que imitava corrida e lambada. Correu, coçou, bocejou, vomitou. Tudo se repetiu, não na mesma ordem, até chegar ao local que acreditava ser seu destino. Sentia fortes calafrios e sua temperatura corporal indicava um frio que não correspondia ao sol que o céu queimava com fúria. Com a mente ainda um tanto equivocada, bateu com sua mão esquerda numa porta velha de madeira e sentiu uma farpa penetrá-la enquanto a direita a ajudava se apoiar na parte de cimento da casa para mais um jato de líquido estranho. Um menino abriu a porta, a mediu por inteiro com o cenho franzido (talvez a luz também o afetasse tanto quanto para ela?) e correu para dentro. Ela esboçou um sorriso seco o vendo correr. Ele sim sabia correr. E foi com esta mesma corrida que ele voltou com um pacotinho para ela e a entregou parte dele enquanto revirava os bolsos da moça. Deixou o pacotinho após recolher o conteúdo do bolso traseiro da calça jeans suja, seu colar de ouro e seu cinto. Débil, ela não protestou. No entanto, percebeu que o garoto se abaixara e deixara outros objetos ali ao lado dos pés dela, que por sinal, estavam descalços e ela nem havia visto ou sequer sentido. Ela piscava rapidamente e tentava desviar os olhos das lágrimas de suor que cismavam em cair dentro deles. Respirava ainda mais rápido que piscava e imaginava que gostaria de ter corrido tão rápido quanto respirava. Tentava firmar as mãos que tremiam ainda dos calafrios para que pudesse manusear o pacotinho que precisava abrir. Como num passe de mágica e de uso de toda a energia que ainda restava, concentrou-se e afastou todos os pensamentos, exceto um: achar os outros objetos deixados pelo menino. Agora era óbvio o que ele havia deixado. Olhou pros pés e os viu ali esperando exclusivamente por ela. Pegou a colher e o isqueiro. Montou tudo tão rapidamente quanto precisava e sua respiração sugeria e sentiu-se entrar novamente no estado acolhedor do sono dos deuses. A perna tombou pesada em cima da porta fechada, o ombro esquerdo foi em direção ao chão seco e, em reflexo, a mão direita soltou-se da seringa que havia ficado presa no braço esquerdo. Respirou mais levemente e agora, de forma honesta e consciente, sorria. Sabia que havia chegado ao seu limite, que o copo da sua vida havia se enchido com a última gota e que só restava esta única saída. Sorria ao lembrar de segundos antes: havia preenchido a seringa com uma gota a mais do que o permitido. A gota do seu limite. A gota que a libertaria. Ainda sorrindo, olhava diretamente pro sol que estava dentro dos seus olhos. Caminhou em direção a ele e, vagarosa mas impiedosamente, derreteu.

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