A moça, a atendente e a outra

Quinta, 16:28h

Moça: “Por, favor, veja se dá pra me encaixar aí com qualquer manicure… preciso muito fazer a mão, sabe? Amanhã viajo a trabalho e ficarei 2 semanas fora, preciso ir arrumadinha e também…”

É cortada pela voz do outro lado da linha.

Atendente: “Então, é que está lotado mesmo, assim em cima da hora fica complicado…”

Moça: “Entendo, entendo, mas é que tenho andado realmente ocupada, trabalhando até meia noite todos os dias. Não ia ficar inventando tudo isso aqui por telefone pra uma pessoa que nem conheço. Seu salão é o quinto já que tento marcar. Pra vc ver, estou te ligando enquanto faço xixi!”

Dá a descarga.

A atendente suspira como se querendo tirar aquele imagem mental que veio à sua ávida imaginação de uma louca workaholic com o cabelo todo supostamente penteado num coque, mas sim num belo desarranjo de fios, óculos caindo pela cara e aqueles olhos estalados de quem muito andou bebendo café, fazendo xixi e a implorando ao telefone para um encaixe estúpido. Jamais entenderia este exagero todo por conta de uma porra de uma manicure.

Atendente: “Moça, ok, ok. Faz o seguinte, você vem amanhã às 14h, tá? É o único horário que dá e ainda assim, se minha gerente souber, me esgana. Nem fale meu nome. Marquei com a Cida.”

A moça suspira em alívio como se resgatada de enforcamento em praça pública. Relaxa a cabeça pesada na mão direita e fecha os olhos. Realmente aquilo era importante pra ela.

Moça: “Ai, muito, muito obrigada!! Você me salvou! Olha, pode deixar que, qualqueeeer problema, eu ligo para avisar, assim você desmarca aí e libera o horário.”

Atendente: “Tá bom, liga mesmo… mas tá confirmado amanhã às 14h. Anota aí. Até!”

Moça: “Tchau, nos vemos amanhã. Ah! É Cida, né?”

Atendente: “Isso. Tchau.”

Ufa. Menos um problema. Ainda bem que havia se lembrado, afinal ir com as unhas naquele estado ridículo seria realmente vergonhoso, para não dizer lastimável. Não queria que suas unhas dessem motivo para entenderem o porquê do seu estado civil. Todos da empresa sabiam que ela era solteirona e isso era, para eles, um dado valioso para usar contra ela quando ela não estava presente. Era enlouquecida por trabalho já que não tinha mais nada a fazer.  Estava naquele mau humor absurdo antes da reunião marcada diretamente com o representante oficial de Belzebu na Terra não porque seus funcionários não tinham comprometimento e deixavam de fazer as coisas corretamente, mas sim porque ela não “dava” já fazia sei-lá-quantos-anos. E por aí ia todo tipo de comentário azedo. Não entendia nada, nem um pouco mesmo, sobre o quão intrometidas na vida dos outros as pessoas são, mas sabia que se preocupassem menos com a dela. Então, sim, queria chegar com ótima aparência (como sempre fazia) na matriz para se reunir com a cúpula da empresa. Aquele horário com a Cida era mesmo importante.

Sexta

13:24h

A moça deixa metade do lanche que havia pedido de almoço em cima da mesa, ao lado do laptop, salva o documento, arruma o cabelo num suposto coque, desamassa a saia, puxa a bolsa de dentro da gaveta e sai correndo para seu compromisso. Desce até o 3º andar da garagem, pega o carro e sobe as rampas em velocidade mais alta que a permitida. Não queria se atrasar, não podia se atrasar. A atendente tinha quebrado um galhão, então queria até chegar antes para mostrar sua real necessidade e, quem sabe, até começar antes.

13: 36h

Seu freio ABS fez o pedal tremer sob seu pé direito. Foi tudo muito rápido e nem deu tempo de fazer mais nada, a não ser frear. Ela vinha vindo em sua pista quando avistou de longe que o semáforo mais a frente estava fechado. Foi diminuindo de quinta para quarta marcha, mas aí a luz passou de vermelha para verde. Como não se tem uma quarta cor para avisar que o semáforo vai abrir, a única reação diante ao inesperado foi a de pisar com tudo no freio. Mas não deu tempo. O estrondo seco da outra moça invadindo seu capô foi aterrorizante. A moça saiu correndo do carro, gritou por ajuda, olhou a outra estatelada no chão como se tivesse sempre estado ali, ligou para a polícia e acompanhou a outra a outra dentro da ambulância, deixando seu carro na mão do seguro. Entrou no hospital, falou com a polícia, relatou tudo como havia sido, se desculpou várias vezes entre fungadas e soluços de choro, sabia que a culpa era dela, vinha trabalhando demais, até meia noite há vários dias, estava cansada, dirigindo dentro da velocidade permitida, mas muito além da desejada para uma pedestre encontrar seu carro…, soluços, fungadas, lágrimas. Se considerou ainda mais um monstro quando viu a hora e se deu conta que ia perder o horário com a Cida e nem poderia ligar para avisar. Queria agradecer a tal da atendente, mas diante o cenário de filme dramático vencedor de Oscar no qual se encontrava, mandou um agradecimento por pensamento e também um desculpe-me para a Cida e voltou a prestar atenção no policial que tomava notas. De repente é tudo suspenso e entra o doutor na sala de espera onde a moça e o policial estavam. Avisou, em tom ainda de filme, que haviam encontrado uma carta de despedida na bolsa da outra, onde claramente constava toda a intenção de se matar hoje, se jogando na frente de um carro. Havia sucedido, pois, na verdade, estava já quase sem vida ao chegar ao hospital e que, apesar de todas as ações tentadas, não haviam sido capaz de salvá-la. O médico ainda olhou para a moça e avisou que ela também precisava ser examinada, dado o choque, e o policial a liberou, solicitando a carta original. A moça se despediu do policial e seguiu o médico corredor adentro.

14:13h

A atendente olha de novo para o relógio gigante na parede pela quinta vez em doze minutos, balança o lápis na mão e com cara de total enfado, passa a borrachinha presa ao outro extremo do lápis no papel em cima do nome da cliente das 14h. Chama o nome da Cida num berro disfarçado, tentando passar certa classe na frente das outras clientes e a avisa que ela tem 17 minutos pra comer, mas 17 mesmo pq às 14h30 tem cliente. E desabafa com o balcão à sua frente: “E a louca que não veio! Me liga que nem uma doida varrida e desesperada ontem, arrumei tudo pra ela, a Cida aqui esperando, nem almoçou a coitada, eu aqui segurando tudo e ela nem pra avisar que não vem. ‘Consideração’ é o caralho mesmo, hein…”

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  1. hahaha curti muito. Que coisa, hein?? 🙂

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