“V”er

Eu não perdi um parente. Não perdi um colega, uma amiga, um futuro parceiro. Não perdi uma namorada, um amante e nem um marido. Não foi uma perda de um filho, uma professora, um bicho de estimação. Quando aquele ser, que chamarei de “V”, apareceu em minha vida, não sabíamos o que ele representaria quando se retirasse de mim. Essa pessoa desconhecia, e eu menos ainda, o verdadeiro propósito da beleza e da dor que ela teria em meu inteiro universo. Quando saiu, não perdi uma pessoa. Perdi muito mais que tudo isso, perdi até a mim, mas até assim a perda foi maior, mais intensa. Me consumiu esta indescritível perda, me desgastou e, agora, aqui estou. Minha perda é, apesar de ida, ainda presente, pois sinto seu peso todos os dias. Quem dirá a falta que sinto dela. Não é nem saudade, é falta mesmo. Aquela sensação de precisar de algo, do corpo pedir, da mente exigir e do coração explodir. A falta que se sente de um vício; só quem tem, entende. Meu vício era “V” e minha ignorância também, pois não tinha a menor consciência disso. Apenas achava que era um bom sentimento, algo que me trazia, fossem pequenas ou grandes, doses diárias do elemento que perdi: a minha inspiração. Ela se foi rapidamente despenhadeiro abaixo, afogada bruscamente pelo mar, estilhaçada contra um para-brisa, pisoteada no meio de um caos e massacrada por mim mesma, ela foi, sem aviso e ou preparo, ignorada. Sua “V”ingança foi me deixar aqui assim, amargurada, perdida (e eu achando que quem estava perdida era ela) e sem rumo. Ela deve ter se encontrado com outra ou outro por aí. Ela é assim, sem muitos escrúpulos, livre, leve, solta, desejada por todos e amada por um ou uma. Ela não tem escolhas, pois as cria. Ela faz e acontece. Pinta e borda e leva a faca e o queijo sempre. Se deleita sozinha e se aprecia porque sabe que é boa. Só não perdoa. Egocêntrica, se fere rapidamente e se torna vil com quem não a trata como ela crê merecer. Não entendeu o meu momento, as minhas dificuldades, nem minha vida fora a que ela me proporcionava. Se julgava única e, um pouco ressentida, virou as costas e nem olhou pra trás. Foi-se. “V”ejo o buraco translúcido (nem cor tem, nem preto é) por ela antes ocupado e que agora a falta preenche. Agora curte minha “V”ida com outrém que nem sei quem. A minha perda foi isso mesmo: uma perda. Sem volta, sem garantia, sem troca ou retorno. Não paguei para tê-la, então não poderia exigir que fosse minha. A busco em cantos diversos, tento vê-la no sorriso de vários, mas ela era tão única, tão ela, tão somente “V”erdadeira demais em mim que acho que não a encontro por não conseguir lidar com ela por aí. Ou é comigo ou nada. E, por isso, dou as boas “V”indas ao que vier.

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  1. Muito bom! De volta a velha (como assim velha?? haha) Ju! Esta é a sua especialidade.. Um devaneio meio sonho meio mistério e muito esperto com as palavras, e sempre intenso e poético. Wellcome!

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