29 minutos

Taciturna. Assim estava e também um tanto irritada e sem fome quando decidi sair para comer, forçando-me, assim, a um intervalo que parecia ser indesejado por todos. Até mesmo por mim. Em velocidades totalmente opostas, almocei e comi sobremesa. A voracidade do apetite que, até então, não sabia ter me permitiu, em curtas e rápidas garfadas, perceber que havia gostado mais da quiche do que da carne. Realmente haviam usado queijo importado e de primeira na tortinha francesa. Tanto foi que me permiti uma segunda fatia. Isso porque não tinha fome… Já amenizando a sensação penosa e preenchendo o buraco do estômago com alegria, consegui dar um intervalo agora médio entre as garfadas. Estava realmente faminta, como há muito não ficava. Surpresa. Foi assim que fiquei com a falta de percepção da fome, algo que é, normalmente, tão gritante em mim. Dei de ombros e nem me questionei se, por vontade ou culpa, queria um doce depois. Simplesmente levantei, peguei colher e pratinho e o preenchi com um bolo quente de chocolate e sorvete de baunilha. Tudo medido certinho para que cada colherada tivesse tanto bolo quanto sorvete. Afinal, qualidade de vida e ser feliz estão em voga nos assuntos de hoje. Pronto! Ali estava eu sendo, nada mais, nada menos que feliz! Um deleite. Satisfeita. Eis que um suspiro independente saiu do meu ombro e me fez olhar em volta pela primeira vez desde que sentara à mesa. Respirando. O restaurante não estava, em absoluto, cheio como sempre era. A pressa era tanta que nem reparei ao chegar. Apressada. Quando me sentei, foi como se tivesse sentado em tachinhas: levantei de sopetão para ir de encontro ao buffet VIP que ali me esperava. Me senti um zumbi em busca de humanos: comer era o foco, o único foco. Automática. Fui trazida de volta à realidade humana através da presença estática de um garçom sério e com cara de “por favor, não peça nada complicado” segurando um bloquinho de notas. Quando o fitei, escutei “bebida?”. Parecia que meu olhar havia acionado um botão que o fazia perguntar aquilo. Pela sua expressão, fiz o curto pedido de “uma Coca” mesmo. Simplista. Mais fácil que isso, impossível. Nem incluí aquele papo todo de “com ou sem gás? Gelo? Limão? Limão espremido?” para não ter problemas. Teria adicionado um “com gelo”, mas ele já se dirigia ao balcão com ombros caídos que denunciavam um “mantenha distância”. Depois do tal suspiro, olhei em volta. Somente mais 4 mesas estavam ocupadas à minha frente e, atrás de mim, mais 3 (sendo que suspeito ter visto um cara comer sozinho numa mesa estrategicamente posicionada atrás da pilastra). Sendo assim, 8 mesas (se contarmos como “meia mesa” a minha e a do outro sozinho) chamavam a atenção dos 5 garçons. Sei que eram 5 porque todos vieram servir-me algo: bebida, servir mais Coca no copo pela metade, oferecer mais gelo ou Coca, perguntar se queria café e trazer a conta. Atenção. Olhei novamente e não havia mais nenhum outro garçom que não tivesse vindo aqui. Todos muito polidos, até mesmo o cara-fechada. Ou eram assim ou eu estava também menos chata do que quando entrei ali. Percepção. Bonitinho foi o garçom me trouxe a conta: ao solicitar a dolorosa, o pedi que “fechasse pra mim, por favor”, ao que ele respondeu: “fêcho, sim”. Sorri e aguardei tranquila. Mudança.

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  1. Eu sempre me pergunto se você escreveu por algo real ou imaginário… Também, o que importa? Adoro ler seus posts!!!!

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